segunda-feira, 8 de julho de 2013
Foto: Patriarcado de Lisboa

Reedificar na paz a cidade de todos
1.Ação de graças
Caríssimos irmãos e estimados amigos:
Ao começar o ministério de que o Santo Padre Francisco me incumbiu no Patriarcado, o meu primeiro sentimento só pode ser de ação de graças a Deus, que assinala a sua presença nas nossas vidas decalcando-as no trilho pascal que Jesus Cristo unicamente abriu. É altura de retomar na Igreja de Lisboa o que nela comecei a viver há seis décadas e meia, do âmbito familiar ao paroquial e do paroquial ao diocesano, com tantos exemplos e estímulos de leigos, consagrados e clérigos que a minha memória evoca agradecida. Destaco de entre eles os meus três sucessivos Patriarcas, os Cardeais Cerejeira, Ribeiro e Policarpo, nos quais pude divisar o rosto paternal de Deus e o cuidado pastoral de Cristo. Ao Senhor D. José Policarpo, reafirmo a muita gratidão pela amizade com que sempre me acompanhou, bem como pela lucidez e generosidade do seu serviço eclesial, dentro e além do Patriarcado. Sei que posso contar com a sua oração e conselho, para o trabalho que agora inicio.
Nesta evocação, não poderia faltar a Igreja Portucalense, de cujo serviço episcopal me ocupei nos últimos anos. Foram muitos e muitíssimos os testemunhos que lá colhi de dedicação a Deus e ao próximo, tanto na quadrícula diocesano-paroquial como nos institutos de vida consagrada, movimentos e associações de fiéis, ou em centenas de instituições sociocaritativas e outras, com generosidade reforçada pelas atuais dificuldades da sociedade portuguesa e especialmente nortenha. Norte que, aliás, bem nos pode inspirar a todos, pela capacidade de resistir, recomeçar e inovar, que a sua população reiteradamente demonstra, em muitos dos seus intervenientes sociais, económicos e culturais. Nunca poderei agradecer devidamente o apoio e o carinho com que sempre fui acompanhado pela Diocese do Porto e o seu magnífico povo, bem como pelas respetivas instituições públicas e privadas. Quero, ainda assim, destacar a grande comunhão eclesial que sempre encontrei nos órgãos coletivos da pastoral diocesana e, acima de tudo, nos caríssimos Bispos Auxiliares e demais membros do Conselho Episcopal. Como tudo na Igreja de Cristo, só em comunhão se serve a comunhão: assim foi no Porto, como assim é e será em Lisboa.
2. Comunidades de acolhimento e missão
Importa insistir neste ponto e à luz do Evangelho que ouvimos: «Naquele tempo designou o Senhor setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. E dizia-lhes: “[…] Quando entrardes nalguma cidade dizei primeiro: ‘Paz a esta casa!’”»
Jesus envia os seus discípulos a todas as cidades e lugares aonde ele mesmo havia de ir. Este envio define permanentemente a Igreja e legitima-a como “cristã”, participando da missão de Cristo, que “por nós homens e para nossa salvação desceu dos Céus”. Ou, como lhe ouvimos dizer no quarto Evangelho, dirigindo-se ao Pai: «Assim como Tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo» (Jo 17, 18). Enviada a todas as cidades e lugares onde Cristo quer chegar, é função da Igreja abrir caminho a tudo o que assinala a sua vinda, superando egoísmos com partilhas e transformado solidões em convivências.
Mas, falando de Igreja, falamos de comunidade e não de subjetivismos dispersos. Jesus envia-os “dois a dois”, como já aos Doze Apóstolos os reunira em grupo. Também e apenas deste modo se pode falar de Igreja “cristã”, pois Cristo nada faz essencialmente sem o Pai, ou eclesialmente o quer fazer sem os discípulos. Ensina-nos mesmo que, em Deus, a unidade é comunhão, quando prossegue: «Não rogo só por eles, mas também por aqueles que hão de crer em mim, por meio da sua palavra, para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e eu em Ti; para que assim eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu me enviaste» (Jo 17, 20-21).
A Igreja não existe para si mesma. No Espírito de Cristo, existe para Deus Pai em permanente ação de graças e para o mundo em constante serviço. O que não se inclui neste duplo e coincidente movimento está a mais e exige conversão. O mundo, este nosso mundo de hoje em dia, precisa urgentemente de comunidades de acolhimento e missão.
Não sendo este um momento de detalhes programáticos, adianto, ainda assim, o que me parece mais óbvio: a Igreja de Lisboa seguirá as indicações do Sínodo dos Bispos, na sua Mensagem de outubro último, e da Conferência Episcopal Portuguesa, na sua Nota Pastoral de 11 de abril, que visa “promover a renovação da pastoral da Igreja em Portugal”. Tiraremos certamente daqui plano e programa que baste para os próximos tempos e na maior correspondência ao que o nosso povo espera da Igreja, dentro ou mesmo fora das fronteiras da crença. Permito-me mesmo sugerir aos meus irmãos do Patriarcado de Lisboa que tenham muito presentes os referidos documentos, na preparação do próximo ano pastoral a todos os níveis da Diocese e das comunidades, institutos, movimentos e associações. O Senhor envia-nos “dois a dois” e só em comunhão devemos trabalhar.
Diz-nos o texto sinodal: «É necessário criar comunidades acolhedoras, onde todos os marginalizados encontrem a sua casa, realizar experiências concretas de comunhão que, com a força ardente do amor […], atraiam o olhar desencantado da humanidade contemporânea» (Mensagem, nº 3). Comunidades que coletivamente o sejam, quer para acolher, quer procurando quem ainda não chegou, adianta mais à frente: «A obra da evangelização não é tarefa de alguns na Igreja, mas de comunidades eclesiais enquanto tais, onde se tem acesso à plenitude dos instrumentos do encontro com Jesus: a Palavra, os sacramentos, a comunhão fraterna, o serviço da caridade, a missão» (Mensagem, nº 8).
O Papa Francisco tem insistido repetidamente neste ponto, nos seus preenchidos meses de luminoso pontificado. E que importante é e será, que nas nossas comunidades todos possam encontrar sempre um “sim” à pessoa que são, mesmo quando não devamos conceder o que imediatamente nos peçam. Ainda aí imitaremos Cristo, que tanto evidenciava a misericórdia divina como não escondia a exigência evangélica, quer acolhendo quem vinha, quer propondo sempre mais e melhor, mesmo que difícil.
3. A consequência sociocultural do Evangelho
Nesta linha geral, a Mensagem do Sínodo dos Bispos dá-nos várias indicações, absolutamente a reter. Lembro apenas mais uma, aliás muito realçada nas recentes Jornadas Pastorais do Episcopado: «O gesto da caridade, por sua vez, exige ser acompanhado pelo empenho em favor da justiça, com um apelo que a todos envolve, pobres e ricos. Daí também a inserção da doutrina social da Igreja nos percursos da nova evangelização e o cuidado pela formação dos cristãos que se empenham em servir a convivência humana na vida social e política» (Mensagem, nº 12).
São muitas e globais, de facto, as consequências socioculturais do Evangelho, quer na concretização comunitária quer na aplicação social. Com a difusão do cristianismo e a sua feliz coincidência com as aspirações de tantas sabedorias e credos, foram pouco a pouco germinando sementes de vida, civilização e cultura de que não podemos abdicar sem pôr em risco a própria humanidade de nós todos: a dignidade da pessoa humana, na variedade enriquecida de raças e povos e sempre protegida e promovida da conceção à morte natural de cada um; a verdade familiar, na complementaridade homem-mulher, na geração e educação dos filhos e na entreajuda entre mais novos e mais velhos; uma visão desmitificada e responsável do conjunto da criação, que assim mesmo abriu espaço à ciência e ao autêntico desenvolvimento; a valorização do trabalho, como meio de realização pessoal e social de cada ser humano, sempre a garantir neste sentido; a distinção entre “Deus e César”, que abriu caminho à laicidade positiva das instituições políticas e à liberdade religiosa dos cidadãos; e o reconhecimento teórico e prático de quatro princípios indispensáveis a qualquer sociedade que se queira justa e realmente livre: a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a subsidiariedade e a solidariedade (cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nº 160).
Nos tempos que vivemos, quase para nos refazermos como sociedade reencontrada, os cristãos têm de oferecer a todos, crentes ou não crentes, o que recebem de Deus, como luz penetrante, verdade verificada e caridade plena. Com simplicidade, como São Pedro ensinava aos que viviam numa sociedade ainda por evangelizar: «No íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça; com mansidão e respeito, mantende limpa a consciência...» (1 Pe 3, 15-16). Tanto mais que, diante da complexidade dos problemas, as respostas nem sempre são fáceis, exigindo abertura, esclarecimento e estudo; e os que não concordam hoje connosco, poderão fazê-lo mais à frente, em caminhos necessariamente comuns. Como o próprio nome indica, a concórdia começa nos corações, quando ninguém desiste de ninguém, seja em que campo for.
4. Rumos a seguir
Concluo, caríssimos irmãos e estimados amigos, aludindo à referida Nota pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, visando promover a renovação da pastoral da Igreja em Portugal. Indica-nos ela sete oportunos “rumos”, dos quais destaco os três primeiros: O primado da graça, «sabendo todos bem, pastores e fiéis leigos, que o essencial da vivência cristã e dos frutos pastorais na vida da comunidade não depende tanto do nosso esforço de programação e da multiplicação dos nossos passos e afazeres, mas sobretudo da transformação da nossa mente e da conversão do nosso coração, operadas pela ação da graça de Jesus Cristo»; a comunhão para a missão, requerendo «comunidades que sejam autênticas escolas de vivência da fé e da comunhão, gerando entre todos os seus membros laços de fidelidade, de proximidade e de confiança, que se traduzam no serviço humilde da caridade fraterna»; e a missão generalizada, «como empenho da comunidade toda e de todos seus membros».
Falando de graça, comunhão e missão, imediatamente pensaremos n’Aquela em que tudo se realizou primeiro, no acolhimento e oferta de Jesus Cristo ao mundo. Retomemos o exemplo de Santa Maria, que em Nazaré acolheu em si mesma e em Belém ofereceu a todos o Verbo de Deus incarnado. - Lembrai-nos sempre, ó Mãe de Cristo e da Igreja, que isso mesmo havemos de ser: pleno acolhimento de Cristo e missão permanente no mundo, para reedificar na paz a cidade de todos!
+ Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa
Santa Maria de Belém, 7 de julho de 2013
Ouvir, ver e estar perto vão ser as primeiras ações de D. Manuel Clemente como Patriarca de Lisboa. No dia em que entra solenemente na Diocese de Lisboa, o Jornal VOZ DA VERDADE publica uma grande entrevista ao 17º Patriarca de Lisboa, que considera regressar transformado, após mais de seis anos como Bispo do Porto. Ao longo de oito páginas, D. Manuel Clemente garante que a experiência na comunidade cristã é insubstituível e define a evangelização como uma iniciação comunitária.
Foi nomeado Patriarca de Lisboa, pelo Papa Francisco, no passado dia 18 de maio. Como acolheu a nomeação do Santo Padre?
Acolhia-a com a naturalidade possível! Eu tenho dito isso, e corresponde à verdade. A última coisa que eu propriamente pedi foi para ser padre. Vinte anos depois, em 1999, o Papa João Paulo II nomeou-me para ser Auxiliar do Senhor D. José Policarpo, e fui Bispo Auxiliar durante sete anos; depois o Papa Bento XVI nomeou-me para o Porto, em 2007; agora o Papa Francisco nomeia-me para Lisboa. Tentamos permanecer como somos, disponíveis! Eu cada vez levo mais a sério – e costumo repetir isto porque acho que faz bem aos outros ouvirem – que é mesmo para levar a sério aquilo que Jesus diz e manda no Evangelho de São Mateus 6, 34: ‘Não vos preocupeis com o dia de amanhã, basta a cada dia a sua preocupação’. De maneira que me parece que é também um exercício de realismo. A Igreja é que nos pede, a Igreja escolhe! Isso também nos dá uma grande margem de liberdade interior. A gente faz o que pode; agora se fossemos nós a escolher ficávamos um pouco mais presos com a própria escolha. Assim, é a Igreja que escolhe, vamos e fazemos o que podemos e sabemos. Como diz o povo e bem: ‘Quem dá o que tem, a mais não é obrigado!’.
Quando foi conhecido o nome do Senhor D. Manuel para Patriarca de Lisboa, percebeu-se consenso na Igreja e na sociedade civil. Sente que esta unanimidade de opiniões pode trazer maior responsabilidade à sua nova missão?
Se eu pensasse muito nisso, era! Mas como referi, tenho pouco esse tipo de preocupações. Vou fazendo o melhor que posso, em cada momento, e depois se desiludir alguém, tenho pena; se outros ficarem contentes, graças a Deus!
Com esta nomeação regressa à sua diocese de origem, de onde saiu em 2007 para o Porto. Nestes seis anos que esteve longe de Lisboa, pôde acompanhar a vida do Patriarcado?
Sinceramente, acompanhei muito pouco. E a razão principal foi porque a Diocese do Porto preenche qualquer um que a sirva. A Diocese do Porto é uma realidade tão densa, tão forte – basta dizer que só o número de paróquias é quase quinhentas! E depois tem muitas instituições da Igreja, com vários tipos de ligação; muita ação sociocaritativa, em centros sociais, conferências vicentinas, misericórdias… Depois é uma diocese com muitas iniciativas culturais, porque pedem constantemente a participação de um Bispo. Nesse sentido, notei alguma diferença em relação a Lisboa, onde os meios seculares e os meios religiosos estão mais distintos; no Porto não. Eu cheguei a ir a locais onde em princípio não seria convidado a ir. Estou a lembrar-me, por exemplo, de centros republicanos e de outras instituições do género, que expressamente queriam o Bispo lá. Por isso, uma realidade como o Porto não dava para pensar em muito mais!
Foi importante a experiência pastoral como Bispo do Porto?
Foi muito importante! Também tenho dito, e insisto agora, eu não vou regressar a Lisboa como parti para o Porto. Vou regressar com mais de seis anos cheios de uma experiência eclesial e social fortíssima, que me transformou! Nesse sentido, ainda mais presente à sociedade, à cultura, porque as pessoas pedem e é importante estar lá!
Sente que é um ‘regresso a casa’?
Acaba sempre por ser! A ‘nossa casa’ começa por ser a da infância e a da adolescência. Depois, vamos passando por outras casas, mas o essencial está determinado, na maior parte dos casos. A Diocese de Lisboa – até pelo meu trabalho e a minha atividade, mesmo como jovem e ainda antes de ser seminarista, lá no escutismo do Oeste e depois como Bispo Auxiliar, quer na Região Pastoral do Oeste, quer na Região da Cidade – não deve ter um quilómetro quadrado onde eu não tenha passado! Onde aquelas casas, aquelas igrejas, aquelas árvores, aqueles caminhos não me digam qualquer coisa! Foi uma vida tão absorvida, que tudo quanto vá de Lisboa a Alcobaça está cá dentro!
O Senhor D. Manuel é natural de Torres Vedras. Como foi a sua educação cristã?
Foi muito simples e, utilizo outra vez a palavra, natural. Eu nasci numa família cristã, a minha mãe tinha sido catequista e voltou a sê-lo quando enviuvou e enchia a casa de catequese, sem nenhuma pieguice, com muita verdade, com muita certeza. As referências que eu tenho de Cristo, de Nossa Senhora, de Igreja são de origem! Não me lembro de nenhuma época da vida em que isto não tenha sido presente e forte.
Depois o ambiente paroquial. É preciso ver que a minha infância não tem televisão! Portanto, eu conhecia aquilo que me era apresentado diretamente. O que se fixa é o experiencial, direto! A passagem de casa para a comunidade cristã, concretamente para a paróquia de Torres Vedras, também foi muito bonita, porque era uma paróquia muito envolvente, toda a gente se conhecia. Tínhamos catequese na igreja, encostados aos altares laterais, e depois seguia-se a Missa, que era em latim, mas que depois lá nos explicavam. No final, vínhamos cá para fora brincar. Depois foram as récitas da catequese, a Primeira Comunhão, a Profissão de Fé… tudo era muito preenchido e o ano passava-se a correr! Embora, naquela altura, demorasse mais do que demora hoje. Digamos que foi uma absorção cristã que me fez acentuar muito a importância da experiência comunitária, que é insubstituível. Porque o cristianismo, de certa maneira, absorve, é assim um ar que se respira. É por isso que o cristianismo também é uma cultura! Também não é por acaso que nós abrimos o Evangelho e Jesus quando começa a proclamar o Evangelho cria a comunidade. É contemporâneo, é uma coisa da outra! O que é a evangelização se não uma iniciação comunitária? Sendo Deus, o próprio Deus, uma comunidade de amor!
Licenciou-se em História e só depois, em 1973, com 25 anos, entrou no seminário. De que forma Deus o inquietou?
Deus inquietou-me porque estava cá sempre! Também nesse aspeto vem à mente a palavra natural. Mesmo até a própria opção celibatária. Claro que quando eu era adolescente e quando era jovem, muitas vezes pensava em constituir uma família, ter uma profissão – ainda me lembro que quando estava na Faculdade de Letras o meu projeto era casar, ter muitos filhos, ter vida autárquica, porque já naquela altura achava interessante, ser professor de História com muitas atividades circum-escolares à mistura. Era assim, mais ou menos, o meu projeto de vida! Mas o que acontece é que o envolvimento em atividades de Igreja, digamos assim, era muito forte! Nesses anos, sobretudo no campo do escutismo, porque entre os 15 e os 25 anos o que eu fui foi escuteiro, o resto também ia fazendo, mas era quase um full time. Até porque nessa altura se lançou o escutismo do Oeste, a partir do agrupamento de Torres Vedras e do Seminário de Penafirme, e todos os fins-de-semana eram para andar para baixo e para cima, entre Alcobaça, Caldas e Lourinhã!
A pouco e pouco, a vida da Igreja e a dedicação a atividades apostólicas foi prevalecendo. Quando chego ao fim do curso, cá dentro já não havia espaço para mais nada! Nem sequer para construir uma família naturalmente e mesmo sacramentalmente. A minha família era a Igreja! E foi assim que as coisas acabaram por coincidir e não havia outro caminho se não o bater à porta da diocese e dizer: ‘Estou aqui!’.
Mas houve algum momento em que sentisse: ‘É por aqui!’?
Não, foi isto tudo! Eu não tenho uma Estrada de Damasco instantânea! Tenho a estrada toda!
Que memórias guarda do tempo de formação em seminário?
Muito boas! Nós eramos poucos: quando eu entrei para o seminário estavam lá oito e passámos a ser onze. Naquela casa, no Seminário dos Olivais, o chamado pavilhão B, onde está agora a Conferência Episcopal, já estava vazio, e nós concentrámo-nos todos num corredor do pavilhão A. Eu era o 12, e nunca tive outro quarto! Por isso, acontecia que nos dávamos muito de perto uns com os outros e sempre. De tal maneira que, quer no tempo de aulas, quer no tempo de Verão, fazíamos muitas coisas sempre em conjunto, em comum. Íamos para a Serra da Estrela – onde ainda hoje continuo a ir, quarenta anos depois! – e o tempo era todo passado em ambiente de Igreja, em atividades de Igreja. Também fizemos peregrinações, algumas até Roma, no fim do Ano Santo de 1975. São anos muito consistentes em tudo o que se fazia, quer nas aulas, quer no seminário, quer na iniciação pastoral nas paróquias, onde tínhamos atividades. Estava nessa altura a nascer a paróquia da Portela e eu sempre trabalhei com os adolescentes da Portela! Passou num instante, mas foi um tempo muito bom!
Recorda-se, certamente, do dia da sua ordenação, em 1979…
Claro! Foi num dia de semana, sexta-feira! Fui ordenado no dia 29 de junho, que é dia de São Pedro e São Paulo, ao fim da tarde, por ser dia da semana, na Sé de Lisboa. Foi um dia muito bonito! Fui só eu ordenado, os meus colegas de curso foram depois ordenados noutras alturas. Eramos três de Lisboa e dois de Santarém – um já está no Céu a assistir a esta nossa conversa!
Naquela altura, é preciso ver que os dias de ordenação tinham um relevo particular porque éramos muito poucos. Em toda a década de 70, ordenaram-se quinze padres para a Diocese de Lisboa! Em toda a década! Um já faleceu e foi meu colega Bispo, o Senhor D. Tomaz Silva Nunes; os outros, graças a Deus, estamos todos ao serviço!
Após a ordenação sacerdotal, esteve um ano como coadjutor em Torres Vedras e Runa…
Ainda passei um semestre em Roma, na Faculdade de História Eclesiástica, onde aprendi umas coisas que me foram muito úteis, sobretudo na metodologia do trabalho da história eclesiástica. Ao fim desse primeiro semestre voltei para Portugal e fui coadjutor de Torres Vedras e Runa até final desse ano pastoral. Depois nomearam-me para a equipa formadora do Seminário dos Olivais, onde fui prefeito, depois vice-reitor e reitor.
Durante esses anos nos Olivais contactou com muitos daqueles que vão ser seus colaboradores em Lisboa. O facto de os ter conhecido enquanto formador e como colega é importante para esta sua nova missão?
Claro que é muito importante! Porque temos um à vontade e, mais uma vez, uma naturalidade na relação que só se alcança com o tempo e com a convivência. Eles conhecem-me a mim, eu conheço-os a eles, tanto quanto nos vamos conhecendo, porque basicamente só Deus nos conhece! Há muita coisa que noutro sítio teria de começar de princípio, como aconteceu no Porto, e que aqui já está feita!
A 6 de novembro de 1999, então com 51 anos, o Senhor D. Manuel é nomeado Bispo Auxiliar de Lisboa. Esta nova missão permitiu-lhe estar mais perto das comunidades cristãs da diocese. Que recordações guarda desse tempo?
Tenho memórias muito boas e muito ricas para mim! As comunidades são muito distintas. Uma coisa são as comunidades do centro da cidade de Lisboa, outra são as dos vários bairros mais periféricos. Outra coisa são as de uma outra periferia que é tudo o que é novo e que ainda se está a organizar até em termos topográficos, de sedimentação das comunidades urbanas. Há medida que avançamos pelo Oeste, temos também outras comunidades.
O que importa, e o que foi crescendo nessa visita constante, nessa passagem pelas comunidades, foi a consciência de que nas comunidades cristãs está o Corpo de Cristo, como nós o podemos tocar. Há uma frase que o Papa Bento XVI retomou num dos seus textos, que é da antiguidade cristã, que diz o seguinte: quando nós falamos em Corpo de Cristo, falamos em três aceções – a primeira é o corpo humano que Jesus teve, nascido da Virgem Maria; a segunda é o corpo eucarístico, em que Ele quis ficar connosco no sacramento da Eucaristia, ‘tomai e comei isto é o meu Corpo’; e depois o corpo eclesial de Cristo, que Ele forma com aqueles que o comungam e que o apresentam no mundo. Ora, esta visita frequente às comunidades cristãs, apesar desta diferença que eu há pouco acentuei, mais sociológica, a experiência é essa, a experiência de estar no corpo de Cristo em cada comunidade cristã. Que cada comunidade cristã tenha consciência disso e por isso viva, como diz São Paulo aos Coríntios, cada um com o seu carisma e com o seu ministério, no conjunto, colaborando como um órgão, num grande organismo que é uma comunidade cristã, Corpo de Cristo. Isso é a riqueza da Igreja! É, digamos, a vida da Igreja, do que ela tem de essencial para depois oferecer ao mundo, também como participação e presença.
O que o preocupa na Igreja, hoje?
Há preocupações que são de sempre, que eu nem preciso sair de mim para as ter. Que é uma adesão cada vez mais sincera, convicta e real ao que Cristo me propõe. Isso é um programa imenso! Creio que todos nós ainda partiremos deste mundo com aquela dilaceração que São Paulo tinha: ‘Que infeliz homem que eu sou, o bem que eu quero não consigo, e o mal que eu não quero muitas vezes cai’. Portanto, esta consciência, esta dilaceração é fundamental. Quanto mais a Igreja mantiver viva a presença de Cristo e a exigência do Evangelho, mais se sente questionada. Como cristãos, nós estamos sempre diante de Cristo como estava Pedro! Quando Pedro reconhece que é Cristo, diz: ‘Senhor, afasta-te de mim, que eu sou um pobre pecador’. Esta consciência é fundamental! Eu costumo dizer em cada comunidade cristã para não se precipitarem, quando começa a Missa, porque o ato penitencial é mesmo para parar. Não é para dizer ou cantar e andar para a frente para o glória. Calma! Isto é fundamental: uma Igreja em permanente conversão, uma exigência constante, não presumir de si próprio, como Paulo, porque às vezes andamos bem, noutras vezes andamos muito mal, precisamo-nos de levantar, e que a Igreja seja um apelo e uma ocasião permanente de reabilitação e recomeço. Isso é fundamental. Portanto, isto ao nível mais íntimo.
Depois há algo que me preocupa, mas no sentido construtivo do termo. É que sendo a Igreja uma realidade essencialmente – não é acessoriamente – comunitária, a Igreja existe para que homens e mulheres de hoje participem na comunhão que Deus é, e isso só pode acontecer comungando uns com os outros, participando, integrando, não ficando ninguém de fora, preocupando-se positivamente uns com os outros. Isso exige estabilidade. Não pode ser apenas em certos momentos – também há ocasiões para isso, quando vamos a um encontro internacional, a Taizé, a Lourdes, a Roma, ao Rio de Janeiro, em que vimos de lá muito emocionados, mas isso tem o seu papel! Mas essencialmente a experiência comunitária é uma fidelidade àquele grupo! Uns são melhores, outros são piores, uns são velhos, outros são novos, uns têm saúde, outros estão doentes, uns são fáceis de aturar, outros são difíceis, mas são aqueles! É importante a persistência na comunidade, porque nós estamos hoje numa sociedade muito desarrumada. Eu costumo dizer que é a primeira sociedade que não sabe muito bem de que terra é… as pessoas gaguejam quando nós perguntamos de onde é que são! Porque realmente são de muitos sítios! Então, onde é que se fixam? Onde é que se faz a experiência comunitária? Isto leva-me a repetir – e outros dizem-no melhor do que eu – que o principal problema pastoral é talvez a reconfiguração comunitária. Como é que nós hoje vamos criar comunidades adequadas ao tempo em que se vive, com a dispersão que nós hoje temos, com o alibi mediático – que pode ser um alibi: as pessoas julgarem que por estarem virtualmente ligadas estão realmente ligadas, que não estão. Este é um problema e eu não tenho a solução no bolso. Eu julgo, aliás, que ninguém tem, porque estamos numa mudança epocal profunda. Nós não estamos na mesma época, nós estamos a mudar de época. Basta ver no campo da sociedade e da economia, e até da política internacional, os próprios comentadores e os próprios autores, têm mais perguntas do que respostas. Isto muda tanto, em termos de comunicação, e depois a comunicação também induz a ideias partilhadas. Em termos de cultura, isto não estabilizou e vai demorar muito tempo a estabilizar. Talvez demore menos tempo que noutras mudanças epocais, mas vai demorar algum tempo. Ora, como é que nós vamos afirmar, reafirmar e afinar a experiência comunitária nesta mudança epocal? Este é o grande desafio! E eu não tenho ilusões que posso estar no Patriarcado mais anos ou menos anos, mas hei-de ir para o outro mundo – como todos nós – com o problema por resolver. Mas alguma ajuda hei-de prestar…
O seu último livro intitula-se ‘O tempo pede uma Nova Evangelização’. De que forma pode ser feito esse novo anúncio?
O tempo que vivemos é este, e é indefinido. Quando queremos resolver um problema, a primeira coisa que podemos e devemos fazer é objetivá-lo. Mas esta mudança nós estamos nela; temos dificuldade em objetivar. Para onde é que isto vai? Como é que isto ‘poisa’, para nós recriarmos a comunidade cristã neste contexto, que é essencial ao próprio cristianismo? Mas o grande desafio é esse: que com as comunidades que entretanto tivermos ou conseguirmos construir, proporcionarmos aos nossos contemporâneos – e essa é que é a verdadeira iniciação cristã – uma autêntica imersão comunitária. Isso é fundamental! Dizem-me que nalguns países onde o cristianismo está hoje ainda nascente, e com muita pujança, concretamente no sudoeste asiático, que as comunidades vivem ao ritmo catecumenal. Como há sempre muitos adultos a entrar no cristianismo, isso não é um setor específico, um departamento, mas é a própria comunidade cristã, como nós encontramos nos textos dos séculos terceiro, quarto, quinto aqui na Europa, que vive ao ritmo da comunidade que inicia e que cresce com cada um que vem, que depois se integra e descobre a sua função no conjunto, quer como leigo, quer como consagrado, quer como clérigo. Isto é um enorme desafio… mas também é muito belo, porque é o cristianismo a acontecer!
O Senhor D. Manuel é caracterizado como sendo homem da cultura. Em entrevista por ocasião da visita de Bento XVI a Portugal, manifestou a necessidade de reequacionar a presença dos cristãos no mundo da cultura. Como é que isso poderá ser concretizado?
Numa atividade permanente de leitura, aprofundamento, debate, presença… isso é muito importante. Porque a cultura não é uma realidade passiva, é uma realidade ativa. A cultura não é termos uma estante cheia de livros, ou CD’s, ou de informação de outro tipo. Isso são meios, são repositórios. A cultura é um cultivo. Aliás, a primeira aceção até é agricultura: tratar da terra para que ela germine. A cultura do espírito, como também se diz, é um exercício permanente. É muito importante que nas comunidades cristãs, nas famílias cristãs, nos movimentos cristãos, se tenha em conta o que por aí vai de propostas, de debates, de criatividade nos vários domínios e tudo isso depois seja objeto de reflexão e de interpenetração da própria vida das comunidades, para que o culto e a cultura se enriqueçam mutuamente e para que nós saibamos responder e dar razões da nossa esperança, como diz um texto tão bonito do Novo Testamento, àqueles que nos perguntam. Portanto, esta atividade cultural é uma exigência! O culto é cultura!
Foi nomeado 17º Patriarca de Lisboa. O que diz a história acerca dos seus antecessores?
Houve patriarcados longos, como logo o primeiro! O de D. Tomás, que aliás também foi de Bispo do Porto para Patriarca de Lisboa. Houve também patriarcados muitos curtos, como um que eu estudei particularmente para a história dos patriarcas, que foi o Cardeal Saraiva. É uma longa série de Patriarcas, mas é muito interessante porque ela é significativa em cada Patriarca das várias épocas que se viveram em Lisboa e no país. Os Patriarcas do século XVIII, como D. Tomás de Almeida, até aos anos 20 do século XIX – porque como eles eram também predominantemente os capelães da corte – eram todos figuras da nobreza e viviam na Junqueira, perto do Palácio da Ajuda. Depois os Patriarcas que vêm a seguir ao liberalismo, a começar pelo D. Patrício, que era aliás de origem muito humilde, são Patriarcas já de outro tipo, são Patriarcas do constitucionalismo, em que a Igreja se integra dentro do Portugal constitucional, quase que uma parte eclesiástica da administração publica. São homens de outro perfil. Os Patriarcas a partir do Cardeal Mendes Belo, na sua fase pós 5 de Outubro, e depois o Cardeal Cerejeira, são Patriarcas eminentemente pastorais, ligados à vida da reconstrução da Igreja Católica em Portugal e no Patriarcado, que nessa altura era muito grande e envolvia o que é hoje Lisboa, Santarém e Setúbal e, até 1920, a parte sul do que é hoje a Diocese de Leiria. Portanto, eram sobretudo Patriarcas pastorais. Nós temos épocas distintas na história do Patriarcado e agora com os últimos Patriarcas, concretamente D. António Ribeiro e D. José Policarpo, entrámos já nestas épocas pós-modernas, em que é preciso que a Igreja se reidentifique como entidade propriamente pastoral e como consequência social e cultural.
Há algum Patriarca com quem se identifique particularmente?
Concretamente em relação a estes três Patriarcas que eu conheci, o Cardeal Cerejeira foi o Patriarca da minha infância, adolescência e juventude. Ele foi Patriarca até 1971, tinha eu já 23 anos. Portanto, toda a minha vida paroquial, e até nesses tempos de Acção Católica e do escutismo católico, é muito sob a égide do Cardeal Cerejeira, que era para nós uma referência muito grande. Para já, como pessoa, era apaixonante, era extremamente afectivo. Tive ocasião também de privar com ele, na sua casa de férias, porque era amigo de um sobrinho dele, e estive lá em Lousado. Era uma figura cativante, um homem muito inteligente, de grande sensibilidade, que viveu tempos difíceis numa situação muito complicada que era estar no centro do país naquelas épocas já de muita transição.
Depois o Cardeal Ribeiro, uma figura de uma grande contenção e muito certeiro nas suas manifestações e na sua presença. Teve um papel fundamental naqueles anos 70, que foram tão complicados em Lisboa, particularmente em torno do 25 de abril e do regime. Ele conseguiu dar, não só à Igreja de Lisboa mas também à Igreja do país, um papel de grande intervenção e serenidade na vida nacional e no encontro do seu melhor rumo – não nos podemos esquecer que foi ele ainda que no ano anterior à revolução fez a redação de um documento do episcopado, a Carta Pastoral nos dez anos da Pacem in Terris [Carta Encíclica do Papa João XXIII, publicada a 11 de Abril de 1963], onde nós podemos encontrar todo o programa de democratização do país. Eu chamo muito a atenção para isso, porque é um contributo notável do Cardeal Ribeiro, que depois foi nosso Patriarca até à sua morte, ainda com 69 anos. Sempre com grande rigor, era um homem com uma contenção activa! Também agia dessa maneira e marcava o ritmo e conseguiu dar rumo ao Patriarcado durante anos muito complicados.
O Senhor Cardeal Policarpo de certa maneira faz uma simbiose dos dois anteriores, porque tem a afectividade – então quem privou com ele sabe isso muito bem! –, a generosidade, o carinho e até por vezes a exuberância, que nós tínhamos no Cardeal Cerejeira; e também tem aquele pendor racional, intelectual e, quando é preciso, contido, como tinha o Cardeal Ribeiro. Todos eles me marcaram muito, com certeza.
Vai manter o seu lema episcopal, ‘In Lumine Tuo’ (‘Na Tua Luz’)?
O lema é tão bonito que não podia escolher outro! É um versículo daquele salmo tão bonito: ‘Na Tua Luz, Senhor, veremos a Luz’. Isso foi-me sugerido na circunstância do Jubileu do Ano 2000, em que fui ordenado Bispo, e é daí que nós vivemos, da luz de Cristo! E duma luz que esplende na Cruz! O que está no brasão é uma estrela de oito pontas – porque o oito significa a eternidade, é o que fica para além dos dias, é o oitavo dia –, mas que só esplende na Cruz! E é exactamente na adequação à Cruz de Jesus Cristo, portanto à Sua entrega ao Pai e ao homens, que brilha uma luz para todos, para a humanidade e com certeza para a Igreja.
De que forma o lema episcopal se tem concretizado na sua missão pastoral?
Tanto quanto eu me tenho adequado à Cruz, tem havido algum fulgor! Não há mais porque eu me adequo pouco!
Que ‘programa’, chamemos-lhe assim, tem para o pontificado que agora inicia?
O ‘programa’ – e vou dizê-lo certamente logo na homilia inicial – está muito facilitado, porque a Igreja tem um programa para cumprir. Tem o programa do Vaticano II, cinquenta anos depois, no que diz respeito ao seu autoentendimento como Igreja, como comunhão, para a unidade do mundo. A Igreja é um exercício de comunhão oferecido a um mundo que precisa de comunhão. Isto é o programa do Concílio, da Lumen Gentium e da Gaudium et Spes!
Mais perto de nós, temos a mensagem da última Assembleia do Sínodo dos Bispos, que é magnífica, e que de alguma maneira tem eco na Nota Pastoral que os bispos portugueses fizeram agora em abril [‘Promover a Renovação da Pastoral da Igreja em Portugal’], com os rumos para a pastoral nas dioceses portuguesas, e que de alguma maneira também se pode resumir em tornar a Igreja e as nossas comunidades em lugares de acolhimento e de missão!
Porque depois, quanto a programas mais concretos, 99% do programa das nossas comunidades está feito e é o de sempre: é acolher as pessoas, é proporcionar-lhes iniciação cristã, é acompanhar as famílias, é acompanhar os grupos, é estar presente na sociedade envolvente. Eu acho que até é um bocadinho abusivo estar a sobrecarregar aquilo que é o programa normal de qualquer comunidade cristã com mais programas por cima… o que é necessário é potenciar aquilo que nós temos que fazer!
A partir deste sábado, 6 de julho, quais vão ser as suas primeiras ações como Patriarca de Lisboa?
Ouvir, ver, estar perto. Como digo, em mais de seis anos de ausência, há muita coisa que permanece, mas há muita coisa também que evoluiu! Há muita gente nova que chegou – eu tenho reparado, porque é uma coisa que todos os bispos reparam, que é o número de ordenações, que foi muito considerável nestes anos. E também a integração de clero que veio de outras partes, e de diáconos! Há muita coisa nova que eu tenho que conhecer, também muita gente. Portanto, estes primeiros tempos vão ser para abeirar-me da realidade, porque a Igreja faz-se pela Igreja, não é nenhum Bispo que faz uma Igreja. Eu estou no centro de muita coisa, esse é que é o meu lugar. Portanto, ativar, aproximar, unir e potenciar aquilo que já está! Estes primeiros tempos vão servir para saber o que lá está!
No dia da sua nomeação, dirigiu uma saudação à diocese. Hoje, ao entrar solenemente no Patriarcado, que mensagem gostaria de deixar à Igreja de Lisboa?
Retomo o essencial do que lá está, dos sentimentos com que regresso, e depois aquilo que digo no fim, em “termos programáticos”, que é o sentimento de Jesus na sinagoga em Nazaré, e que hoje é particularmente urgente: eu hoje vim para anunciar a Boa Nova aos pobres. Nós temos pobrezas sempre, e algumas acrescidas devido ao estado actual da sociedade portuguesa, e temos problemas novos. Temos uma sociedade muito envelhecida, com gente muito só, a quem temos que atender. Temos gente muito dispersa exactamente por esse definhamento comunitário e social a que me referi. Gente que é preciso integrar e que é preciso ir procurar! Isto é o essencial! Portanto, eu gostaria que também comigo e com a Igreja toda, em Lisboa, nos abeirássemos das antigas e das novas pobrezas, numa atitude reforçada de presença e de companhia.
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sábado, 29 de junho de 2013
Homilia nas Ordenações Sacerdotais
1. Esta solene celebração na Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, em que ordenaremos novos presbíteros, é a última a que presido no meu ministério apostólico de Bispo de Lisboa. Esta celebração está mais voltada para o futuro do que para o passado. Seis novos presbíteros encarnam a esperança de futuro desta Igreja, que todos amamos e que servi, de diversas formas, durante toda a minha vida. Não podemos esquecer que estamos no Ano da Fé. Estará, certamente, no nosso coração o Credo em que acreditamos: “Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica”.
Alguém me sugeriu que seria melhor que estes presbíteros fossem ordenados já pelo novo Patriarca de Lisboa, que tomará posse daqui a uma semana e sob cuja orientação pastoral exercerão o seu ministério sacerdotal, como membros do presbitério a que ele presidirá. Decidiu ele e nós aceitámos, que se seguisse a normalidade da programação pastoral da Diocese. Isso ajudar-vos-á, queridos ordinandos, a não fazerdes da relação com o vosso Bispo apenas uma relação humana, à pessoa, mas ao ministério apostólico, que hoje ainda eu, amanhã ele, exercemos na Igreja de Lisboa. Os Apóstolos, de modo particular Pedro e Paulo, preocuparam-se que este ministério apostólico, alicerce da autenticidade da Igreja, não ficasse prisioneiro das suas pessoas, da sua história, da maneira como foram Apóstolos. Preocuparam-se em garantir sucessores no ministério, tantas vezes ainda em sua vida, na consciência de que o ministério apostólico é maior do que as suas pessoas e a sua história, é fidelidade a Jesus Cristo e garantia da perenidade da Igreja.
2. Quando há 42 anos o Senhor D. António Ribeiro sucedeu ao Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, este, na homilia da tomada de posse do seu sucessor, dirigindo-se aos seus diocesanos, afirmou, evocando a afirmação de João Baptista em relação a Jesus, o Messias, que iniciava a sua missão pública: “É preciso que ele cresça e eu diminua”. Neste momento exprimo a atitude aí enunciada com outras palavras: o Senhor D. Manuel, novo Patriarca, e eu próprio, só desejamos uma coisa: que a Igreja de Lisboa cresça, se consolide como povo crente, que quer ser no meio da nossa sociedade um testemunho da esperança, da visão da vida como ela brota da sua união a Cristo. E para esse fortalecimento da Igreja de Lisboa ambos queremos contribuir, cada um na verdade do sacerdócio apostólico, cuja plenitude ambos recebemos, e das circunstâncias concretas da missão recebida. Ambos amamos bastante esta Igreja para tudo fazermos, na verdade das nossas vidas, para que ela cresça na verdade e na fidelidade, até ao dia em que nos seja dada a coroa de justiça que o Senhor tem reservada para todos aqueles que gastaram a vida ao serviço da sua Igreja. Essa esperança fortaleceu Paulo quando sentiu que a sua missão humana chegava ao fim, um fim que é um princípio, porque compete também aos Apóstolos e seus sucessores exprimirem nas suas vidas esta relação viva da Igreja peregrina com a Igreja triunfante.
3. Queridos ordinandos, irmãos e irmãs, na intensidade dos nossos sentimentos presentes demos hoje prioridade à confissão da fé da Igreja: “Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica”. Como acontece com as virtudes da fé, da esperança e da caridade, cada uma destas notas constitutivas da Igreja só são possíveis se incluírem todas as outras. A Igreja só será una se for santa, só será católica se for apostólica.
Há uma relação intrínseca entre unidade e apostolicidade da Igreja. E a expressão sacramental da apostolicidade é, na Igreja particular, o ministério do Bispo, sucessor dos Apóstolos, ministério em que, aqueles que o exercem, são mais do que as suas qualidade e características pessoais. Eles exprimem e garantem, desde o início, a unidade da Igreja. Unidade da mesma fé, recebida dos Apóstolos de Jesus. Eles garantem, na sua missão, que a nossa fé seja sempre a fé da Igreja, de toda a Igreja como povo crente e não a expressão da maneira individual de acreditar. A confissão da fé da Igreja exige tanta renúncia, tanta humildade da inteligência, tanto sentido de corpo e de comunhão. Queridos ordinandos, como membros do presbitério, o vosso ministério exige esta grandeza de horizonte, de que a união ao vosso Bispo é a garantia, quando celebrais, quando anunciais o Evangelho, quando orientais as consciências nas dificuldades concretas com que os cristãos se deparam. Em tudo o vosso ministério é um serviço da fé da Igreja.
Numa Igreja particular, como a nossa querida Igreja de Lisboa, esta unidade da fé está ligada à comunhão apostólica do Colégio Episcopal, a que preside o Bispo de Roma, o Pastor de toda a Igreja. É ele que marca o ritmo da apostolicidade e da unidade. Também nele o ministério que recebeu é infinitamente mais do que a sua pessoa. A nossa união ao Papa é expressão da apostolicidade e da unidade.
Na minha longa vida de ministério sacerdotal cultivei sempre esta união ao Sucessor de Pedro. A sua palavra ensinou-me o caminho da fé e da verdade e, por vezes, levou-me a corrigir perspectivas pessoais na compreensão da complexa realidade cristã.
Hoje louvo o Senhor pela grandeza dos Papas da minha vida, pela sua santidade, pela riqueza do seu Magistério, pela atenção aos sinais dos tempos não hesitando inovar quando a verdade da história o exigia, inovar na fidelidade à fé recebida dos Apóstolos. O Magistério dos Papas foi farol a guiar a Igreja na evolução do tempo, numa expressão dupla de fidelidade: à fé dos Apóstolos e às vozes profundas da humanidade, mostrando à Igreja as aberturas do coração humano à surpresa do amor de Cristo, Bom Pastor, que é de ontem, de hoje e de sempre; à surpresa, essa muito grande, do Espírito Santo, o amor personalizado e que garante à Igreja que na sua busca da actualidade da mensagem, nunca se desviará da fé apostólica.
Neste momento da minha vida, em que deixo o ministério de Bispo diocesano, mas não deixo o Colégio Apostólico e de partilhar a responsabilidade de garantir que a Igreja será fiel à apostolicidade, vai a minha expressão de fé e de caridade fraterna para com o actual Bispo de Roma, o Papa Francisco. E na comunhão com ele, exprimo a minha gratidão por todos os Papas da minha vida sacerdotal, que muito me ajudaram a manter sempre viva esta consciência da fé da Igreja, apesar das minhas fragilidades. Acolho, com coração humilde, tudo o que o Papa Francisco decidir a meu respeito, aceito tudo o que me pedir, e ofereço-lhe a ele, e através dele à Igreja, o silêncio da minha oração, a busca da contemplação, a procura contínua da verdade.
† José Cardeal da Cruz Policarpo
Administrador Apostólico do Patriarcado
domingo, 9 de junho de 2013
"O Senhor nos olha com misericórdia
CIDADE DO VATICANO, 09 de Junho de 2013 (Zenit.org) - Publicamos aqui as palavras que o Santo Padre pronunciou às 12h de hoje aos fiéis e peregrinos reunidos na Praça de São Pedro antes da habitual oração do Angelus.
***
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
O mês de Junho é tradicionalmente dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, a mais alta expressão humana do amor divino. Precisamente sexta-feira passada, de fato, celebramos a Solenidade do Sagrado Coração de Cristo, e esta festa dá o tom para todo o mês. A piedade popular valoriza muito os símbolos, e o Coração de Jesus é o símbolo por excelência da misericórdia de Deus; mas não é um símbolo imaginário, é um símbolo real, que representa o centro, a fonte de onde jorrou a salvação para toda a humanidade.
Nos Evangelhos encontramos várias referências ao Coração de Jesus, por exemplo, na passagem onde Cristo mesmo diz: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração "(Mt 11, 28-29). Chave, então, é a narração da morte de Cristo segundo João. Este evangelista de fato testemunha o que viu no Calvário, ou seja, que um soldado, quando Jesus já estava morto, perfurou o seu lado com a lança e daquela ferida saiu sangue e água (cf. Jo 19, 33-34). João reconheceu naquele sinal, aparentemente aleatório, o cumprimento das profecias: do coração de Jesus, Cordeiro imolado na cruz, jorra para todos os homens o perdão e a vida.
Mas a misericórdia de Jesus não é apenas um sentimento, é uma força que dá vida, que ressuscita o homem! É o que nos diz também o Evangelho de hoje, no episódio da viúva de Naim (Lucas 7, 11-17). Jesus, com seus discípulos, está chegando em Naim, uma aldeia da Galiléia, no exato momento em que acontece um funeral: é o enterro de uma menino, filho único de uma mulher viúva. Jesus fixa o olhar na mãe que chora. O evangelista Lucas diz: "Vendo-a, o Senhor foi movido de grande compaixão por ela” (v. 13). Esta "compaixão" é o amor de Deus pelo homem, é a misericórdia, ou seja a atitude de Deus em contacto com a miséria humana, com a nossa indigência, o nosso sofrimento, a nossa angústia. O termo bíblico "compaixão" lembra o útero da mãe: a mãe, de fato, experimenta uma reacção toda particular diante da dor dos filhos. Assim nos ama Deus, diz a Escritura.
E qual é o fruto deste amor, desta misericórdia? É a vida! Jesus disse à viúva de Naim: "Não chores", e, em seguida, chamou o menino morto e o despertou como de um sono (cf. vv 13-15.). Achamos que isso é bonito: a misericórdia de Deus dá vida ao homem, o ressuscita da morte. O Senhor nos olha sempre com misericórdia; não esqueçamos, nos olha sempre com misericórdia, nos espera com misericórdia. Não tenhamos medo de aproximar-nos Dele! Tem um coração misericordioso! Se nós lhe mostramos as nossas feridas interiores, os nossos pecados, Ele sempre nos perdoa. É pura misericórdia! Vamos a Jesus!
Voltemo-nos à Virgem Maria: o seu coração imaculado, coração de mãe, vivenciou ao máximo a “compaixão” de Deus, especialmente na hora da paixão e da morte de Jesus. Que Maria nos ajude a ser mansos, humildes e misericordiosos com os nossos irmãos.
É preciso deixar-se amar por Deus
É preciso deixar-se amar por Deus
Meditação do papa na festa do Sagrado Coração de Jesus
CIDADE DO VATICANO, 07 de Junho de 2013 (Zenit.org) - Deixar-se amar por Deus com ternura é difícil, mas é a graça que temos que pedir dele. Este foi o convite do papa Francisco na missa desta manhã na Casa Santa Marta.
Concelebrou com ele o bibliotecário da Santa Igreja Romana, dom Jean-Louis Bruguès, e o pe. Sergio Pagano. Assistiu à missa parte do pessoal do Arquivo Secreto Vaticano.
“Jesus nos amou muito, não com palavras, mas com fatos e com a vida”, repetiu várias vezes o papa na homilia de hoje, solenidade do Sagrado Coração de Jesus, que ele chama de "festa do amor", de um "coração que amou muito". Um amor que, como repetia Santo Inácio, "se manifesta mais nas obras do que nas palavras" e que é especialmente "mais um dar-se do que um receber".
Bases do amor de Deus
“Estes dois critérios”, destacou o papa, “são os pilares do amor verdadeiro”, e é o Bom Pastor quem representa todo o amor de Deus. Ele conhece as suas ovelhas uma por uma, "porque o amor não é abstrato nem geral: é o amor por cada um".
"Um Deus que se torna próximo por amor, que caminha com o seu povo, e esse caminhar chega a um ponto inimaginável. Nunca podemos imaginar que o próprio Deus se torna um de nós e caminha conosco, fica conosco, permanece na sua Igreja, continua presente na Eucaristia, continua na sua Palavra, permanece nos pobres, fica conosco para caminhar! E isto é estar perto: é o pastor perto do seu rebanho, das suas ovelhas, que ele conhece uma por uma".
Explicando uma passagem do livro do profeta Ezequiel, Francisco ressalta outro aspecto do amor de Deus: o cuidado da ovelha perdida e da ovelha ferida e doente:
"A ternura! Deus nos ama ternamente! Nosso Senhor conhece aquela linda ciência das carícias, aquela ternura de Deus. Não se ama com as palavras. Ele se aproxima, chega perto, e nos dá aquele amor com ternura. Proximidade e ternura! Esses dois estilos de Deus que se torna próximo e que dá todo o seu amor inclusive nas menores coisas: com a ternura. E é um amor forte, porque a proximidade e a ternura nos fazem ver a fortaleza do amor de Deus".
Chamados a amar
"Mas vocês amam como eu os amei?", foi a pergunta que o papa destacou, reforçando que o amor deve "ser próximo", deve ser "como o do bom samaritano" e, em particular, ter “o sinal da proximidade e da ternura”. Mas como devolver todo esse amor a Deus? Este foi o outro ponto em que Francisco se concentrou: "amando-o", ficando "perto dele", sendo "ternos com Ele". Mas isto não é suficiente:
"Pode parecer uma heresia, mas é a maior das verdades! Mais difícil do que amar a Deus é deixar-se amar por Ele! A maneira de devolver tanto amor é abrir o coração e deixar-se amar. Deixar que Ele venha até nós e senti-lo perto. Permitir que ele seja terno, que ele nos acaricie. Isso é muito difícil: deixar-se amar por Ele. E é isto o que talvez devamos pedir hoje na missa: Senhor, eu quero te amar, mas me ensina essa difícil ciência, esse difícil hábito de me deixar amar por ti, de te sentir por perto e de sentir a tua ternura! Que o Senhor nos dê esta graça".
Concelebrou com ele o bibliotecário da Santa Igreja Romana, dom Jean-Louis Bruguès, e o pe. Sergio Pagano. Assistiu à missa parte do pessoal do Arquivo Secreto Vaticano.
“Jesus nos amou muito, não com palavras, mas com fatos e com a vida”, repetiu várias vezes o papa na homilia de hoje, solenidade do Sagrado Coração de Jesus, que ele chama de "festa do amor", de um "coração que amou muito". Um amor que, como repetia Santo Inácio, "se manifesta mais nas obras do que nas palavras" e que é especialmente "mais um dar-se do que um receber".
Bases do amor de Deus
“Estes dois critérios”, destacou o papa, “são os pilares do amor verdadeiro”, e é o Bom Pastor quem representa todo o amor de Deus. Ele conhece as suas ovelhas uma por uma, "porque o amor não é abstrato nem geral: é o amor por cada um".
"Um Deus que se torna próximo por amor, que caminha com o seu povo, e esse caminhar chega a um ponto inimaginável. Nunca podemos imaginar que o próprio Deus se torna um de nós e caminha conosco, fica conosco, permanece na sua Igreja, continua presente na Eucaristia, continua na sua Palavra, permanece nos pobres, fica conosco para caminhar! E isto é estar perto: é o pastor perto do seu rebanho, das suas ovelhas, que ele conhece uma por uma".
Explicando uma passagem do livro do profeta Ezequiel, Francisco ressalta outro aspecto do amor de Deus: o cuidado da ovelha perdida e da ovelha ferida e doente:
"A ternura! Deus nos ama ternamente! Nosso Senhor conhece aquela linda ciência das carícias, aquela ternura de Deus. Não se ama com as palavras. Ele se aproxima, chega perto, e nos dá aquele amor com ternura. Proximidade e ternura! Esses dois estilos de Deus que se torna próximo e que dá todo o seu amor inclusive nas menores coisas: com a ternura. E é um amor forte, porque a proximidade e a ternura nos fazem ver a fortaleza do amor de Deus".
Chamados a amar
"Mas vocês amam como eu os amei?", foi a pergunta que o papa destacou, reforçando que o amor deve "ser próximo", deve ser "como o do bom samaritano" e, em particular, ter “o sinal da proximidade e da ternura”. Mas como devolver todo esse amor a Deus? Este foi o outro ponto em que Francisco se concentrou: "amando-o", ficando "perto dele", sendo "ternos com Ele". Mas isto não é suficiente:
"Pode parecer uma heresia, mas é a maior das verdades! Mais difícil do que amar a Deus é deixar-se amar por Ele! A maneira de devolver tanto amor é abrir o coração e deixar-se amar. Deixar que Ele venha até nós e senti-lo perto. Permitir que ele seja terno, que ele nos acaricie. Isso é muito difícil: deixar-se amar por Ele. E é isto o que talvez devamos pedir hoje na missa: Senhor, eu quero te amar, mas me ensina essa difícil ciência, esse difícil hábito de me deixar amar por ti, de te sentir por perto e de sentir a tua ternura! Que o Senhor nos dê esta graça".
domingo, 26 de maio de 2013
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