quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
humildade: a encíclica de Bento XVI na hora da despedida
Bento XVI não publicará a encíclica sobre a fé – embora
em fase avançada – que devia apresentar na primavera. Já não tem
tempo. E nenhum sucessor é obrigado a retomar uma encíclica incompleta
do próprio predecessor. Mas existe outra encíclica de Bento XVI,
escondida no seu coração, uma encíclica não escrita. Ou melhor,
escrita não pela sua pena mas pelo gesto do seu pontificado. Esta
encíclica não é um texto, mas uma realidade: a humildade.
A 19 de abril de 2005 um homem que pertence à raça das
águias intelectuais, temido pelos seus adversários, admirado pelos seus
estudantes, respeitado por todos devido à acutilância das suas
análises sobre a Igreja e o mundo, apresenta-se, recém-eleito Papa,
como um cordeiro levado para o sacrifício. Utilizará até a terrível
palavra «guilhotina» para descrever o sentimento que o invadiu no
momento em que os seus irmãos cardeais, na Capela Sistina, ainda
fechada para o mundo, se viraram para ele, eleito entre todos, para o
aplaudir. Nas imagens da época, a sua figura curvada e o seu rosto
surpreendido testemunham-no.
Depois teve que aprender o mister de Papa. Extirpou,
como raízes arraigadas sob o húmus da terra, o eterno tímido, lúcido na
mente mas desajeitado no corpo, para o projetar perante o mundo. Foi
um choque para ambas as partes. Não conseguia assumir a desenvoltura do
saudoso João Paulo II. O mundo compreendia mal aquele Papa sem efeito.
Bento XVI nem teve os cem dias de "estado de graça" que se atribuem
aos presidentes profanos. Teve, sem dúvida, a graça divina, fina mas
pouco mundana. Contudo teve, ainda e sempre, a humildade de aprender
sob os olhares de todos.
Foram sete anos terríveis de pontificado. Nunca um Papa
teve, num certo sentido, tão pouco "sucesso". Passou de polémica em
polémica: crise com o Islão depois do seu discurso de Ratisbona, onde
evocou a violência religiosa; deformação das suas palavras sobre a Sida
durante a primeira viagem à África, que suscitou um protesto mundial;
vergonha sofrida pelo explodir da questão dos sacerdotes pedófilos, por
ele enfrentada; o caso Williamson, onde o seu gesto de generosidade em
relação aos quatro bispos ordenados por D. Lefebvre (o Papa revogou as
excomunhões) se transformou numa reprovação mundial contra Bento XVI,
porque não tinha sido informado sobre os discursos negacionistas da
Shoah feitos por um deles; incompreensões e dificuldades de pôr em ação
o seu desejo de transparência quanto às finanças do Vaticano; traição
de uma parte do seu grupo mais próximo no caso Vatileaks, com o seu
mordomo que subtraiu cartas confidenciais para as publicar...
Não teve nem sequer um ano de trégua. Nada lhe foi
poupado. Às violentas provações físicas do pontificado de João Paulo
II, ao atentado e ao mal de Parkinson, parecem corresponder as
provações morais de rara violência desta litania de contradições
sofrida por Bento XVI.
Ao renunciar, o Papa eclipsa-se. À própria imagem do seu pontificado. Mas só Deus conhece o poder e a fecundidade da humildade.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Catequese do 1º Domingo da Quaresma
Sé Patriarcal, 17 de Fevereiro de 2013

Neste Ano da Fé, com o qual celebramos o
cinquentenário do início do Concílio Ecuménico Vaticano II, nas
Catequeses da Quaresma meditaremos na Fé do Concílio, isto é, a
compreensão da fé católica que brota dos textos conciliares. O
Magistério solene da Igreja é sempre uma expressão de fé e está ao
serviço da fé de todo o Povo de Deus. Descobrimos aí a fé de todos
aqueles Bispos reunidos com o Santo Padre, como pastores, conduzindo o
Povo de Deus para a compreensão da Igreja, enviada ao mundo
contemporâneo para anunciar o Evangelho de Jesus. As Catequeses
Quaresmais farão, assim, uma unidade com o programa em curso “Acreditar
com o Concílio”, que nos leva, assim o espero, a ler o Concílio com fé e
a aprofundar a nossa fé lendo e meditando textos do Concílio.
Neles encontramos uma visão completa da fé católica, na sua simplicidade e na sua densidade envolvendo toda a existência do homem, o sentido do Universo e da História humana. Usando a expressão de Santo Agostinho, encontramos aí “a fé com que acreditamos” e “a fé que acreditamos”, isto é, o abandono ao Senhor que nos dirige a sua Palavra e nos convida à comunhão de amor e as verdades a que essa Palavra amorosa de Deus nos conduz, acerca de Deus, acerca do homem e do seu destino, acerca do mundo que anseia por essa revelação do amor de Deus. Meditando os textos do Concílio aprendemos que só o ardor da caridade suscitado em nós pela escuta da Palavra de Deus, nos leva a acreditar em verdades. A fé manifesta-nos a união profunda entre a verdade e a caridade.
A fé nasce da escuta da Palavra de Deus
1. O Concílio, falando do ministério dos sacerdotes como anunciadores da Palavra, afirma: “O Povo de Deus é reunido, antes de mais, pela Palavra do Deus vivo (…). É a Palavra de Deus que suscita a fé no coração dos não cristãos e a alimenta no coração dos cristãos; é ela que faz nascer e crescer a comunidade dos cristãos, como diz o Apóstolo: «a fé vem do que ouvimos e o que ouvimos vem da Palavra de Cristo» (Rom. 10,17)[1].
A Palavra de Deus, o facto de Deus nos
falar, é o mistério mais denso e mais simples da História da Salvação:
tem a simplicidade do amor e a densidade do mistério de Deus e do
mistério do homem, profundamente interligados. Deus criou o homem para
poder revelar-se-lhe, abrir-lhe o coração, deixá-lo penetrar no seu
mistério. O homem foi criado para a intimidade da relação com Deus. A
revelação como ela acontece no contexto da história humana, mostra que o
pecado dos homens não levou Deus a mudar o seu desígnio de intimidade
com o homem. Jesus Cristo, Deus feito Homem, não é uma saída de
emergência; esteve sempre previsto nesse eterno desígnio de intimidade
entre Deus e o homem.
Deus é puro Espírito. Antes de criar o homem, criou os outros seres espirituais, a que a Sagrada Escritura chama “Anjos”, isto é, “mensageiros”. Ao criá-los parece que Deus já preparava a aventura da sua intimidade com o homem, a quem criou à sua Imagem e semelhança, apesar de ser corpóreo (cf. Gen. 1,27). Essa é uma novidade na experiência divina: chamar à Sua intimidade de amor um ser corpóreo, isto é, um ser que exprime o seu carácter espiritual na corporeidade. Nessa criação do homem à sua Imagem está claramente expresso o desígnio de Deus ser Homem, de se fazer Homem, tornando perfeita a sua Imagem na Sua criatura. A incarnação do Verbo de Deus está anunciada na criação do Homem. Contemplando o Homem, plenitude de toda a criação, o salmista reza: “Quem é o homem para que Te lembres dele, o filho de Adão para que dele Te ocupes? Fizeste-o pouco inferior a um Deus e coroaste-o de glória e de honra” (Sal. 8,5-6). Esta grandeza sublime com que Deus criou o Homem, anuncia o desejo de se fazer homem, para poder falar de igual para igual, poder amar com amor humano. Este desígnio mantém-se inalterado mesmo na fragilidade da liberdade humana; então o desígnio torna-se redentor.
Na longa história da fragilidade humana a
que vulgarmente chamamos pecado, e que começou logo no início da
humanidade, a manifestação mais grave foi o homem querer substituir-se a
Deus, acabando por esquecê-l’O. Esta questão torna-se o principal
problema de civilização: “O homem tem necessidade de Deus, ou, pelo
contrário, as coisas continuam bastante bem sem Ele”? É a questão que
Bento XVI põe aos nossos contemporâneos. Se as coisas andassem bem mesmo
sem Deus, a decisão de acreditar seria, no fundo, irrelevante. E o
Santo Padre continua: “Se o homem se esquece de Deus, perde
progressivamente a vida, porque a sede de infinito está presente no
homem de um modo que ninguém o pode extinguir. O homem foi criado para a
relação com Deus e precisa d’Ele”[2].
O desígnio de Encarnação preside à História da Salvação
2. Toda a Palavra de Deus surge no
dinamismo de incarnação, no desejo de Deus ser Homem, poder entrar em
comunhão de amor com os homens. Só Deus pode quebrar este abandono de
Deus por parte dos homens, respondendo àquela nostalgia do infinito que
permanece sempre no coração de todos os homens. É certo que na História
da Salvação, Deus, por vezes, envia aos homens os seus “mensageiros”
celestes, ou lhes fala através dos ritmos da natureza. Mas é através da
Palavra humana dos Profetas que Deus se revela claramente, de Homem para
Homem. Deus fala com linguagem humana até ao dia em que fazendo-se
Homem, há plena identificação entre a palavra humana e a Palavra de
Deus. Na pessoa de Jesus tudo é Palavra, o discurso, o silêncio orante,
os milagres. Na Palavra dos Profetas vai estando presente neste diálogo
de Deus com os homens, a Palavra eterna de Deus feita Homem. É um grande
mistério. Mas não é só Deus que é mistério; é também o homem.
Deus falar aos homens é um desígnio de
amor. Diz o Concílio: “Agradou a Deus, na Sua sabedoria e na Sua bondade
revelar-se pessoalmente e dar a conhecer o mistério da Sua vontade
graças ao qual os homens, por Cristo o Verbo feito carne têm, pelo
Espírito Santo, acesso ao Pai e são tornados participantes da natureza
divina”[3].
Em cada palavra revelada está presente o desígnio divino de salvação,
cuja plenitude se atinge em Jesus Cristo. Cristo, Verno Incarnado, é a
plenitude da Palavra de Deus. Não admira que em toda ela se exprima este
mistério da incarnação. Deus abre o seu coração e a profundidade do seu
mistério através de palavras humanas, ou seja, através da sua Palavra
eterna feita Homem. Em toda a palavra profética está presente a
plenitude da revelação, Jesus Cristo Palavra Incarnada. Os profetas,
possuídos por Deus, falam em nome de Deus. A sua palavra é humana, e os
homens podem acolhê-la, e é divina, porque eles dizem o que Deus quer
dizer ao Seu Povo. Escutá-la é entrar em comunhão com Deus e não apenas
com o Profeta que a disse. A fé é escuta de Deus e não apenas dos
profetas. Só em Jesus Cristo a fé é simultaneamente escuta de Deus e do
Profeta que a pronunciou.
A Fé é a escuta obediente da Palavra de Deus
3. Quando o homem identifica nessa palavra
humana a voz de Deus que se lhe dirige, a sua inteligência, o seu
coração e a sua liberdade ficam perante Deus, é um momento de mistério.
Ou rejeita escutar o Senhor ou acolhe essa Palavra e aceita confrontar a
sua vida com o projeto de Deus. Essa escuta da Palavra é a fé. O
Concílio diz: “A Deus que Se revela é devida a obediência da fé, pela
qual o homem se entrega total e livremente a Deus numa completa
homenagem da inteligência e da vontade a Deus que se revela e na adesão
voluntária à revelação que nos faz”[4].
Esta fé é, pois, um momento que toca radicalmente no sentido da nossa
existência. Sente-se que a vida é para ser vivida com Deus, que Ele tem
sempre uma Palavra a dizer sobre o desenvolvimento da vida que nos deu.
Este texto conciliar diz que esta fé é
obediência, inspirando-se em São Paulo que fala da “obediência da fé”
(cf. Rom. 16,26). É a aceitação sem limites de Deus e da sua vontade que
a sua Palavra nos revelou. Esta obediência é um ato de amor porque só o
amor a torna possível.
Nesta escuta obediente da Palavra de Deus,
os cristãos podem ser ajudados por exemplos e modelos: de pessoas que
eles conhecem e que dão testemunho dessa obediência confiante, pelos
Santos e, sobretudo, contemplando Nossa Senhora. O Concílio diz que na
sua obediência de fé ela é modelo da Igreja: “A Mãe de Deus é o modelo
da Igreja na ordem da fé, da caridade e da perfeita união a Cristo”[5].
“Ela trouxe à obra do Salvador uma cooperação sem igual pela sua
obediência, a sua fé, a sua esperança, a sua caridade ardente”[6].
Tudo isso ela exprime na sua resposta ao Anjo: “Eu sou a Serva do
Senhor, faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc. 1,38). Bento XVI
comenta assim esta resposta de Maria: “É o momento da obediência livre,
humilde e simultaneamente magnânima, na qual se realiza a decisão mais
sublime da liberdade humana”. Com esta resposta de Maria o Anjo sente
que a sua missão está conseguida e afasta-se “e Maria fica sozinha com a
tarefa que verdadeiramente supera toda a capacidade humana. Não há
anjos em seu redor; ela deve prosseguir pelo seu caminho, que passará
através de muitas obscuridades, a começar pelo espavento de José perante
a sua gravidez até ao momento em que se diz de Jesus que está «fora de
si» (Mc. 3,21; cf. Jo. 10,20), até à noite na Cruz. Quantas vezes, em
tais situações, Maria terá voltado interiormente à hora em que o anjo de
Deus lhe falou, terá escutado de novo e meditado a saudação «alegra-te,
cheia de graça», e as palavras de conforto «Não temas»… O anjo parte, a
missão permanece e, juntamente com ela, matura a proximidade interior
de Deus, o íntimo ver e tocar a sua proximidade”[7].
Também nisso Maria é modelo de todos os
crentes. Na sua peregrinação da fé terão de voltar a ouvir muitas vezes a
Palavra que lhes mudou a vida e a encontrar nela luz nos momentos de
obscuridade, força nos momentos de fraqueza, a alegria de sentir que na
dureza da caminhada a solicitude de Deus nos acompanha.
A fecundidade da Palavra de Deus
4. Na peregrinação da fé há atitudes que é
preciso cultivar, que exprimem a nossa fidelidade ao projeto que Deus
nos revelou. A primeira é procurar que a Palavra de Deus que escutámos
dê fruto em nós. A Sagrada Escritura afirma claramente a eficácia da
Palavra de Deus que realiza sempre o que anuncia (cf. Num, 23,19; Is.
55,10ss). A Palavra de Deus precede o acontecimento mas tende
irremediavelmente a ser acontecimento.
Na nossa caminhada da fé esta Palavra de
Deus é, tantas vezes, uma Palavra à espera, como o foi nas grandes
profecias. A expressão é de Bento XVI, referindo-se à Profecia de
Isaías, anunciando que uma Virgem conceberá e dará à luz o Emanuel (cf.
Is. 7,14-15). Essa é uma Palavra à espera até Jesus nascer de Maria[8].
A fé é um chamamento à santidade. A Palavra de Deus em nós está à
espera do acontecimento, de realizar em nós o que anuncia. Quantas vezes
também em nós a Palavra de Deus que escutámos no início da nossa fé,
continua a ser “uma Palavra à espera”.
Um outro aspeto da nossa fidelidade na
caminhada da fé é o respeito pela dimensão de incarnação da Palavra que
Deus nos dirige. Ela é palavra da Escritura, escutada sobretudo quando
celebramos e rezamos; é palavra da Igreja, através do ministério
apostólico. A Palavra de Deus incarna na Palavra da Igreja. Os profetas
do Antigo Testamento eram possuídos por Deus antes de falarem em nome de
Deus. No Novo Testamento aqueles que exercem o ministério da Palavra
estão unidos a Cristo, são um com Cristo, que continua a ser Palavra na
Palavra da Igreja. É por isso que quando anunciam a Palavra esta é para
eles e para aqueles que os ouvem, convite de Deus a abraçar o caminho da
salvação.
Cristo é a última Palavra de Deus
5. Cristo é a plenitude da revelação, é a
Palavra definitiva que Deus dirige aos homens. A fé cristã é sempre fé
em Jesus Cristo, mesmo quando é resposta à Palavra de Deus do Antigo
Testamento ou do ensinamento dos Apóstolos. O Concílio ensina: “Com
efeito Deus enviou o Seu Filho, o Verbo eterno que ilumina todos os
homens, para permanecer no meio deles e fazê-los conhecer os segredos de
Deus. Portanto Jesus Cristo, o Verbo feito carne, Homem enviado aos
homens, pronuncia as palavras de Deus e completa a obra de salvação que o
Pai Lhe mandou realizar”[9].
Esta dimensão cristocêntrica da fé é
essencial. Não se trata de acreditar numa qualquer ideia de Deus,
veiculada pela cultura. Acreditar é escutar o Senhor, unir-se à Pessoa
de Jesus, que é Palavra de Deus na totalidade da sua existência e do seu
mistério. É Ele que nos levará ao Pai e nos fará mergulhar na
insondável comunhão de vida e de amor com as Pessoas divinas. É Ele que
nos comunica o Espírito Santo. É por isso que a esses crentes se chama
cristãos.
Esta adesão a Cristo Palavra é uma relação
de amor. A fé desabrocha espontaneamente na caridade e na esperança.
Enquanto escuta da Palavra incarnada, a fé faz sentir ao cristão que a
primeira expressão da caridade é o amor a Jesus Cristo e, por Ele, à
Santíssima Trindade. O amor dos irmãos decorre desse amor a Jesus
Cristo, segundo o seu próprio desejo: “O que fizerdes ao mais pequenino
dos meus irmãos, a Mim o fazeis” (Mt. 25,40).
Por outro lado essa fé como adesão amorosa a
Cristo suscita a esperança. Só nela podemos viver profundamente a fé. O
Concílio afirma: “Unidos, pois, a Cristo na Igreja e marcados pelo selo
do Espírito Santo, «o qual é garantia da nossa herança» (Ef. 1,14),
chamamos e na realidade somos filhos de Deus (cf. 1Jo. 3,1),mas não
aparecemos ainda com Cristo na glória (cf. Col. 3,4), na qual seremos
semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é (cf. 1Jo. 3,2).
Assim, «enquanto permanecermos neste corpo, vivemos exilados longe do
Senhor» (2Cor. 5,6) e, apesar de possuirmos as primícias do Espírito,
gememos dentro de nós (cf. Rom. 8,23) e ansiamos por estar com Cristo
(cf. Fil. 1,23)”[10]. O anúncio da fé é sempre o anúncio da esperança, com amor.
6. Depois da morte e ressurreição de Jesus,
escutar Cristo Palavra acontece quando ouvimos a sua Palavra e
celebramos, nos sacramentos, a sua Páscoa. Os sacramentos, sobretudo a
Eucaristia, são o momento da síntese harmónica entre a Palavra da
Escritura escutada e a Páscoa celebrada. O Senhor quis deixar-nos, nos
sacramentos, essa maneira nova de nos unirmos a Ele escutando-O mais
profundamente[11].
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
As palavras de Bento XVI no I Domingo da Quaresma
Nas tentações o que está em jogo é a fé, porque está em jogo Deus.
CIDADE DO VATICANO, 17 de Fevereiro de 2013 (Zenit.org) - Queridos irmãos e irmãs!
Na última quarta-feira, com o tradicional Rito das Cinzas, entramos na Quaresma, tempo de conversão e penitência em preparação para a Páscoa. A Igreja, que é mãe e mestra, chama todos os seus membros a renovar-se no espírito, a reorientar-se decididamente para Deus, renegando o orgulho e o egoísmo para viver no amor. Neste Ano da Fé a Quaresma é um tempo propício para redescobrir a fé em Deus como critério-base da nossa vida e da vida da Igreja. Isso comporta sempre uma luta, um combate espiritual, porque o espírito do mal naturalmente se opõe à nossa santificação e busca fazer-nos desviar do caminho de Deus. Por isso, no primeiro domingo da Quaresma, todos os anos é proclamado o Evangelho das tentações de Jesus no deserto.
Jesus, de fato, depois de receber a "investidura" de Messias - "ungido" de Espírito Santo - no Batismo no Jordão, foi conduzido pelo mesmo Espírito no deserto para ser tentado pelo diabo. Ao iniciar o seu ministério público, Jesus teve que desmascarar e repelir as falsas imagens de Messias que o tentador lhe propunha. Mas essas tentações são também falsas imagens do homem, que em todos os momentos insidiam a consciência, trasvestindo-se de propostas convenientes e eficazes, ou até mesmo boas. Os evangelistas Mateus e Lucas apresentam três tentações de Jesus, diversificando-as apenas na ordem. O núcleo central consiste em instrumentalizar Deus para os próprios interesses, dando mais importância ao sucesso ou aos bens materiais. O tentador é astuto: não impele diretamente em direção ao mal, mas a um falso bem, fazendo crer que as verdadeiras realidades são o poder e aquilo satisfaz as necessidades primárias. Dessa forma, Deus torna-se secundário, reduz-se a um meio, torna-se definitivamente irreal, não importa mais, desvanece. Em última análise, nas tentações o que está em jogo é a fé, porque está em jogo Deus. Nos momentos decisivos da vida, mas, vendo bem, a qualquer momento, estamos numa encruzilhada: queremos seguir o eu ou Deus? O interesse individual ou o que realmente é bem?
Como nos ensinam os Padres da Igreja, as tentações fazem parte da "descida" de Jesus à nossa condição humana, ao abismo do pecado e das suas consequências. Uma "descida" que Jesus percorreu até o fim, até a morte de cruz, até os infernos do extremo distanciamento de Deus. Desse modo, Ele é a mão que Deus estendeu ao homem, à ovelha perdida, para reconduzi-la a salvo. Como ensina Santo Agostinho, Jesus tirou de nós a tentação, para nos dar a vitória (cf. Enarr Psalmos em, 60,3:. PL 36, 724). Portanto, também nós não tememos enfrentar o combate contra o espírito do mal: o importante é que o façamos com Ele, com Cristo, o Vencedor. E para estar com Ele voltemo-nos para a Mãe, Maria: Invoquemos com confiança filial na hora da provação, e ela nos fará sentir a potente presença de seu Filho divino, para repelir as tentações com a Palavra de Cristo, e assim recolocar Deus no centro da nossa vida.
(Após o Angelus)
Obrigado a todos!
Na última quarta-feira, com o tradicional Rito das Cinzas, entramos na Quaresma, tempo de conversão e penitência em preparação para a Páscoa. A Igreja, que é mãe e mestra, chama todos os seus membros a renovar-se no espírito, a reorientar-se decididamente para Deus, renegando o orgulho e o egoísmo para viver no amor. Neste Ano da Fé a Quaresma é um tempo propício para redescobrir a fé em Deus como critério-base da nossa vida e da vida da Igreja. Isso comporta sempre uma luta, um combate espiritual, porque o espírito do mal naturalmente se opõe à nossa santificação e busca fazer-nos desviar do caminho de Deus. Por isso, no primeiro domingo da Quaresma, todos os anos é proclamado o Evangelho das tentações de Jesus no deserto.
Jesus, de fato, depois de receber a "investidura" de Messias - "ungido" de Espírito Santo - no Batismo no Jordão, foi conduzido pelo mesmo Espírito no deserto para ser tentado pelo diabo. Ao iniciar o seu ministério público, Jesus teve que desmascarar e repelir as falsas imagens de Messias que o tentador lhe propunha. Mas essas tentações são também falsas imagens do homem, que em todos os momentos insidiam a consciência, trasvestindo-se de propostas convenientes e eficazes, ou até mesmo boas. Os evangelistas Mateus e Lucas apresentam três tentações de Jesus, diversificando-as apenas na ordem. O núcleo central consiste em instrumentalizar Deus para os próprios interesses, dando mais importância ao sucesso ou aos bens materiais. O tentador é astuto: não impele diretamente em direção ao mal, mas a um falso bem, fazendo crer que as verdadeiras realidades são o poder e aquilo satisfaz as necessidades primárias. Dessa forma, Deus torna-se secundário, reduz-se a um meio, torna-se definitivamente irreal, não importa mais, desvanece. Em última análise, nas tentações o que está em jogo é a fé, porque está em jogo Deus. Nos momentos decisivos da vida, mas, vendo bem, a qualquer momento, estamos numa encruzilhada: queremos seguir o eu ou Deus? O interesse individual ou o que realmente é bem?
Como nos ensinam os Padres da Igreja, as tentações fazem parte da "descida" de Jesus à nossa condição humana, ao abismo do pecado e das suas consequências. Uma "descida" que Jesus percorreu até o fim, até a morte de cruz, até os infernos do extremo distanciamento de Deus. Desse modo, Ele é a mão que Deus estendeu ao homem, à ovelha perdida, para reconduzi-la a salvo. Como ensina Santo Agostinho, Jesus tirou de nós a tentação, para nos dar a vitória (cf. Enarr Psalmos em, 60,3:. PL 36, 724). Portanto, também nós não tememos enfrentar o combate contra o espírito do mal: o importante é que o façamos com Ele, com Cristo, o Vencedor. E para estar com Ele voltemo-nos para a Mãe, Maria: Invoquemos com confiança filial na hora da provação, e ela nos fará sentir a potente presença de seu Filho divino, para repelir as tentações com a Palavra de Cristo, e assim recolocar Deus no centro da nossa vida.
(Após o Angelus)
Obrigado a todos!
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Audiência de quarta-feira
Superar a tentação de submeter Deus a si e aos próprios interesses
As palavras de Bento XVI na Audiência Geral desta quarta-feira
CIDADE DO VATICANO, 13 de Fevereiro de 2013 (Zenit.org) - Queridos irmãos e irmãs,
Hoje,
Quarta-feira de Cinzas, iniciamos o tempo litúrgico da Quaresma,
quarenta dias que nos preparam para a celebração da Santa Páscoa; é um
tempo de particular empenho em nosso caminho espiritual. O número
quarenta aparece várias vezes na Sagrada Escritura. Em particular, como
se sabe, recorda os quarenta anos no qual o povo de Israel peregrinou no
deserto: um longo período de formação para transformar o povo de Deus,
mas também um longo período em que a tentação de ser infiel à aliança
com Deus estava sempre presente. Quarenta foram também os dias de
caminhada do profeta Elias para chegar ao Monte de Deus, Horeb; bem como
o tempoem que Jesuspassou no deserto antes de iniciar a sua vida
pública e onde foi tentado pelo diabo. Na catequese de hoje gostaria de
deter-me neste momento da vida terrena do Senhor, que leremos no
Evangelho do próximo domingo.
Antes de tudo, o deserto, para onde Jesus se retira, é o lugar do
silêncio, da pobreza, onde o homem é privado dos apoios materiais e se
encontra diante das questões fundamentais da existência, é convidado a
ir ao essencial e por isto lhe é mais fácil encontrar a Deus. Mas o
deserto é também o lugar de morte, porque onde não tem água, não tem
vida, é o lugar da solidão, onde o homem sente mais intensamente a
tentação. Jesus vai para o deserto e lá é tentado a deixar o caminho
indicado pelo Pai para seguir outros caminhos mais fáceis e mundanos
(cf. Lc 4,1-13). Assim, Ele assume as nossas tentações, leva consigo a
nossa miséria, para vencer o maligno e para abrir-nos o caminho para
Deus, o caminho da conversão.
Refletir sobre as tentações sofridas por Jesus no deserto é um
convite para cada um de nós a responder uma pergunta fundamental: o que é
realmente importante na minha vida? Na primeira tentação o diabo propõe
a Jesus transformar uma pedra em pão para acabar com a fome. Jesus
responde que o homem vive também de pão, mas não somente
de pão: sem uma resposta à fome da verdade, à fome de Deus, o homem não
pode ser salvo (cf. vv 3-4.). Na segunda tentação, o diabo propõe a
Jesus o caminho do poder: o conduz ao alto e lhe oferece o domínio sobre
o mundo; mas este não é o caminho de Deus: Jesus tem muito claro que
não é o poder mundano que salva o mundo, mas o poder da cruz, da
humildade, do amor (cf. vv. 5-8). Na terceira tentação, o diabo propõe a
Jesus atirar-se do ponto mais alto do Templo de Jerusalém e fazer-se
salvar por Deus mediante seus anjos, isto é, de fazer algo de
sensacional para colocar à prova o próprio Deus; mas a resposta é que
Deus não é um objeto ao qual impor as nossas condições: é o Senhor de
tudo (cf. vv 9-12.). Qual é o núcleo das três tentações que Jesus sofre?
É a proposta de manipular a Deus, de usá-Lo para os próprios
interesses, para a própria glória e para o próprio sucesso. Então,
essencialmente, de colocar a si mesmo no lugar de Deus, retirando-O da
própria existência e fazendo-O parecer supérfluo. Cada um deveria
perguntar-se: qual é o lugar de Deus na minha vida? É Ele é o Senhor ou
sou eu?
Superar a tentação de submeter Deus a si e aos próprios interesses ou
colocá-Lo em um canto e converter-se à ordem correta de prioridade, dar
a Deus o primeiro lugar, é um caminho que todo cristão deve percorrer
sempre de novo. “Converter-se", um convite que escutamos muitas vezes na
Quaresma, significa seguir Jesus de modo que o seu Evangelho seja guia
concreto da vida; significa deixar que Deus nos transforme, parar de
pensar que somos os únicos construtores da nossa existência; é
reconhecer que somos criaturas, que dependemos de Deus, do seu amor, e
apenas "perdendo" a nossa vida Nele podemos ganhá-la. Isto exige
trabalhar as nossas escolhas à luz da Palavra de Deus. Hoje não se pode
mais ser cristão como uma simples consequência do fato de viver em uma
sociedade que tem raízes cristãs: mesmo quem nasce de uma família
cristã, é educado religiosamente deve, a cada dia, renovar a escolha de
ser cristão, ou seja, dar a Deus o primeiro lugar, diante das tentações
que uma cultura secularizada sugere continuamente, diante das críticas
de muitos contemporâneos.
As provas às quais a sociedade moderna submete o cristão, de fato,
são muitas, e afetam a vida pessoal e social. Não é fácil ser fiel ao
matrimônio cristão, praticar a misericórdia na vida cotidiana, dar
espaço à oração e ao silêncio interior; não é fácil opor-se publicamente
às escolhas que muitos consideram óbvias, como o aborto em caso de
gravidez indesejada, a eutanásia em caso de doença grave, ou a seleção
de embriões para prevenir doenças hereditárias. A tentação de deixar de
lado a própria fé está sempre presente e a conversão torna-se uma
resposta a Deus que deve ser confirmada muitas vezes na vida.
Temos como exemplo e estímulo as grandes conversões como a de São
Paulo no caminho de Damasco, ou de Santo Agostinho, mas também na nossa
época de eclipses do sentido do sagrado, a graça de Deus está a serviço e
faz maravilhas na vida de muitas pessoas. O Senhor nunca se cansa de
bater à porta dos homens em contextos sociais e culturais que parecem
engolidos pela secularização, como aconteceu para o russo ortodoxo Pavel
Florenskij. Depois de uma educação completamente agnóstica, a ponto de
agir com verdadeira hostilidade para com os ensinamentos religiosos
ensinados na escola, o cientista Florenskij encontra-se a exclamar:
"Não, não é possível viver sem Deus!", e a mudar a sua vida
completamente, a ponto de tornar-se monge.
Penso também na figura de Etty Hillesum, uma jovem holandesa de
origem judia que morreuem Auschwitz. Inicialmentedistante de Deus,
descobre-O olhando em profundidade dentro de si mesma e escreve: "Um
poço muito profundo está dentro de mim. E Deus está nesse poço. Às vezes
eu posso alcançá-lo, muitas vezes a pedra e a areia o cobrem: então
Deus está sepultado. É preciso de novo que o desenterrem"(Diário, 97).
Na sua vida dispersa e inquieta, encontra Deus em meio à grande tragédia
do século XX, o Holocausto. Esta jovem frágil e insatisfeita,
transfigurada pela fé, torna-se uma mulher cheia de amor e paz interior,
capaz de dizer: "Vivo constantemente em intimidade com Deus".
A capacidade de opor-se às atrações ideológicas do seu tempo para
escolher a busca da verdade e abrir-se à descoberta da fé é evidenciada
por outra mulher do nosso tempo, a americana Dorothy Day. Em sua
autobiografia, confessa abertamente ter caído na tentação de resolver
tudo com a política, aderindo à proposta marxista: "Eu queria andar com
os manifestantes, ir para a cadeia, escrever, influenciar os outros e
deixar o meu sonho no mundo. Quanta ambição e quanta busca de mim mesma
havia em tudo isso!”. O caminho de fé em um ambiente tão secularizado
era particularmente difícil, mas a Graça age da mesma maneira, como ela
mesma ressalta: "É certo que eu senti muitas vezes a necessidade de ir à
igreja, ajoelhar, curvar a cabeçaem oração. Uminstinto cego, poderia-se
dizer, porque eu não estava consciente da oração. Mas eu ia, inseria-me
na atmosfera da oração ... ". Deus a conduziu a uma consciente adesão à
Igreja, em uma vida dedicada aos menos favorecidos.
No nosso tempo não são poucas as conversões entendidas como retorno
de quem, depois de uma educação cristã talvez superficial, afastou-se da
fé por anos e depois redescobre Cristo e o seu Evangelho. No livro do
Apocalipse, lemos: "Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a
minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e
ele comigo "(3, 20). O nosso homem interior deve preparar-se para ser
visitado por Deus, e por essa razão não deve deixar-se invadir pelas
ilusões, pelas aparências, pelas coisas materiais.
Neste tempo de Quaresma, no Ano da fé, renovemos o nosso compromisso
no caminho de conversão, para superar a tendência de fechar-nos em nós
mesmos e fazer, ao invés, espaço para Deus, olhando com seus olhos a
realidade quotidiana. A alternativa entre o fechamento no nosso egoísmo e
a abertura ao amor de Deus e dos outros, podemos dizer que corresponde à
alternativa das tentações de Jesus: alternativa, isso é, entre o poder
humano e o amor da Cruz, entre uma redenção vista apenas no bem-estar
material e uma redenção como obra de Deus, a quem damos o primado da
existência. Converter-se significa não fechar-se na busca do próprio
sucesso, do próprio prestígio, da própria posição, mas assegurar que a
cada dia, nas pequenas coisas, a verdade, a fé em Deus e o amor
tornem-se a coisa mais importante.
(Após a catequese)
Amados peregrinos lusófonos, uma cordial saudação para todos,
nomeadamente para os grupos portugueses de Lamego e Lisboa, e os
brasileiros de Curitiba e Porto Alegre. Possa cada um de vós viver estes
quarenta dias como um generoso caminho de conversão à santidade que o
Deus Santo vos pede e quer dar! As suas bênçãos desçam abundantes sobre
vós e vossas famílias! Obrigado!
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