sábado, 29 de junho de 2013

Homilia nas Ordenações Sacerdotais
Mosteiro dos Jerónimos, 29 de Junho de 2013

1. Esta solene celebração na Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, em que ordenaremos novos presbíteros, é a última a que presido no meu ministério apostólico de Bispo de Lisboa. Esta celebração está mais voltada para o futuro do que para o passado. Seis novos presbíteros encarnam a esperança de futuro desta Igreja, que todos amamos e que servi, de diversas formas, durante toda a minha vida. Não podemos esquecer que estamos no Ano da Fé. Estará, certamente, no nosso coração o Credo em que acreditamos: “Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica”.
Alguém me sugeriu que seria melhor que estes presbíteros fossem ordenados já pelo novo Patriarca de Lisboa, que tomará posse daqui a uma semana e sob cuja orientação pastoral exercerão o seu ministério sacerdotal, como membros do presbitério a que ele presidirá. Decidiu ele e nós aceitámos, que se seguisse a normalidade da programação pastoral da Diocese. Isso ajudar-vos-á, queridos ordinandos, a não fazerdes da relação com o vosso Bispo apenas uma relação humana, à pessoa, mas ao ministério apostólico, que hoje ainda eu, amanhã ele, exercemos na Igreja de Lisboa. Os Apóstolos, de modo particular Pedro e Paulo, preocuparam-se que este ministério apostólico, alicerce da autenticidade da Igreja, não ficasse prisioneiro das suas pessoas, da sua história, da maneira como foram Apóstolos. Preocuparam-se em garantir sucessores no ministério, tantas vezes ainda em sua vida, na consciência de que o ministério apostólico é maior do que as suas pessoas e a sua história, é fidelidade a Jesus Cristo e garantia da perenidade da Igreja.

2. Quando há 42 anos o Senhor D. António Ribeiro sucedeu ao Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, este, na homilia da tomada de posse do seu sucessor, dirigindo-se aos seus diocesanos, afirmou, evocando a afirmação de João Baptista em relação a Jesus, o Messias, que iniciava a sua missão pública: “É preciso que ele cresça e eu diminua”. Neste momento exprimo a atitude aí enunciada com outras palavras: o Senhor D. Manuel, novo Patriarca, e eu próprio, só desejamos uma coisa: que a Igreja de Lisboa cresça, se consolide como povo crente, que quer ser no meio da nossa sociedade um testemunho da esperança, da visão da vida como ela brota da sua união a Cristo. E para esse fortalecimento da Igreja de Lisboa ambos queremos contribuir, cada um na verdade do sacerdócio apostólico, cuja plenitude ambos recebemos, e das circunstâncias concretas da missão recebida. Ambos amamos bastante esta Igreja para tudo fazermos, na verdade das nossas vidas, para que ela cresça na verdade e na fidelidade, até ao dia em que nos seja dada a coroa de justiça que o Senhor tem reservada para todos aqueles que gastaram a vida ao serviço da sua Igreja. Essa esperança fortaleceu Paulo quando sentiu que a sua missão humana chegava ao fim, um fim que é um princípio, porque compete também aos Apóstolos e seus sucessores exprimirem nas suas vidas esta relação viva da Igreja peregrina com a Igreja triunfante.

3. Queridos ordinandos, irmãos e irmãs, na intensidade dos nossos sentimentos presentes demos hoje prioridade à confissão da fé da Igreja: “Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica”. Como acontece com as virtudes da fé, da esperança e da caridade, cada uma destas notas constitutivas da Igreja só são possíveis se incluírem todas as outras. A Igreja só será una se for santa, só será católica se for apostólica.
Há uma relação intrínseca entre unidade e apostolicidade da Igreja. E a expressão sacramental da apostolicidade é, na Igreja particular, o ministério do Bispo, sucessor dos Apóstolos, ministério em que, aqueles que o exercem, são mais do que as suas qualidade e características pessoais. Eles exprimem e garantem, desde o início, a unidade da Igreja. Unidade da mesma fé, recebida dos Apóstolos de Jesus. Eles garantem, na sua missão, que a nossa fé seja sempre a fé da Igreja, de toda a Igreja como povo crente e não a expressão da maneira individual de acreditar. A confissão da fé da Igreja exige tanta renúncia, tanta humildade da inteligência, tanto sentido de corpo e de comunhão. Queridos ordinandos, como membros do presbitério, o vosso ministério exige esta grandeza de horizonte, de que a união ao vosso Bispo é a garantia, quando celebrais, quando anunciais o Evangelho, quando orientais as consciências nas dificuldades concretas com que os cristãos se deparam. Em tudo o vosso ministério é um serviço da fé da Igreja.
Numa Igreja particular, como a nossa querida Igreja de Lisboa, esta unidade da fé está ligada à comunhão apostólica do Colégio Episcopal, a que preside o Bispo de Roma, o Pastor de toda a Igreja. É ele que marca o ritmo da apostolicidade e da unidade. Também nele o ministério que recebeu é infinitamente mais do que a sua pessoa. A nossa união ao Papa é expressão da apostolicidade e da unidade.
Na minha longa vida de ministério sacerdotal cultivei sempre esta união ao Sucessor de Pedro. A sua palavra ensinou-me o caminho da fé e da verdade e, por vezes, levou-me a corrigir perspectivas pessoais na compreensão da complexa realidade cristã.
Hoje louvo o Senhor pela grandeza dos Papas da minha vida, pela sua santidade, pela riqueza do seu Magistério, pela atenção aos sinais dos tempos não hesitando inovar quando a verdade da história o exigia, inovar na fidelidade à fé recebida dos Apóstolos. O Magistério dos Papas foi farol a guiar a Igreja na evolução do tempo, numa expressão dupla de fidelidade: à fé dos Apóstolos e às vozes profundas da humanidade, mostrando à Igreja as aberturas do coração humano à surpresa do amor de Cristo, Bom Pastor, que é de ontem, de hoje e de sempre; à surpresa, essa muito grande, do Espírito Santo, o amor personalizado e que garante à Igreja que na sua busca da actualidade da mensagem, nunca se desviará da fé apostólica.
Neste momento da minha vida, em que deixo o ministério de Bispo diocesano, mas não deixo o Colégio Apostólico e de partilhar a responsabilidade de garantir que a Igreja será fiel à apostolicidade, vai a minha expressão de fé e de caridade fraterna para com o actual Bispo de Roma, o Papa Francisco. E na comunhão com ele, exprimo a minha gratidão por todos os Papas da minha vida sacerdotal, que muito me ajudaram a manter sempre viva esta consciência da fé da Igreja, apesar das minhas fragilidades. Acolho, com coração humilde, tudo o que o Papa Francisco decidir a meu respeito, aceito tudo o que me pedir, e ofereço-lhe a ele, e através dele à Igreja, o silêncio da minha oração, a busca da contemplação, a procura contínua da verdade.

† José Cardeal da Cruz Policarpo
Administrador Apostólico do Patriarcado

domingo, 9 de junho de 2013

"O Senhor nos olha com misericórdia

CIDADE DO VATICANO, 09 de Junho de 2013 (Zenit.org) - Publicamos aqui as palavras que o Santo Padre pronunciou às 12h de hoje aos fiéis e peregrinos reunidos na Praça de São Pedro  antes da habitual oração do Angelus.
***

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
O mês de Junho é tradicionalmente dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, a mais alta expressão humana do amor divino. Precisamente sexta-feira passada, de fato, celebramos a Solenidade do Sagrado Coração de Cristo, e esta festa dá o tom para todo o mês. A piedade popular valoriza muito os símbolos, e o Coração de Jesus é o símbolo por excelência da misericórdia de Deus; mas não é um símbolo imaginário, é um símbolo real, que representa o centro, a fonte de onde jorrou a salvação para toda a humanidade.
Nos Evangelhos encontramos várias referências ao Coração de Jesus, por exemplo, na passagem onde Cristo mesmo diz: "Vinde a mim, todos os que estais cansados ​​e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração "(Mt 11, 28-29). Chave, então, é a narração da morte de Cristo segundo João. Este evangelista de fato testemunha o que viu no Calvário, ou seja, que um soldado, quando Jesus já estava morto, perfurou o seu lado com a lança e daquela ferida saiu sangue e água (cf. Jo 19, 33-34). João reconheceu naquele sinal, aparentemente aleatório, o cumprimento das profecias: do coração de Jesus, Cordeiro imolado na cruz, jorra para todos os homens o perdão e a vida.
Mas a misericórdia de Jesus não é apenas um sentimento, é uma força que dá vida, que ressuscita o homem! É o que nos diz também o Evangelho de hoje, no episódio da viúva de Naim (Lucas 7, 11-17). Jesus, com seus discípulos, está chegando em Naim, uma aldeia da Galiléia, no exato momento em que acontece um funeral: é o enterro de uma menino, filho único de uma mulher viúva. Jesus fixa o olhar na mãe que chora. O evangelista Lucas diz: "Vendo-a, o Senhor foi movido de grande compaixão por ela” (v. 13). Esta "compaixão" é o amor de Deus pelo homem, é a misericórdia, ou seja a atitude de Deus em contacto com a miséria humana, com a nossa indigência, o nosso sofrimento, a nossa angústia. O termo bíblico "compaixão" lembra o útero da mãe: a mãe, de fato, experimenta uma reacção toda particular diante da dor dos filhos. Assim nos ama Deus, diz a Escritura.
E qual é o fruto deste amor, desta misericórdia? É a vida! Jesus disse à viúva de Naim: "Não chores", e, em seguida, chamou o menino morto e o despertou como de um sono (cf. vv 13-15.). Achamos que isso é bonito: a misericórdia de Deus dá vida ao homem, o ressuscita da morte. O Senhor nos olha sempre com misericórdia; não esqueçamos, nos olha sempre com misericórdia, nos espera com misericórdia. Não tenhamos medo de aproximar-nos Dele! Tem um coração misericordioso! Se nós lhe mostramos as nossas feridas interiores, os nossos pecados, Ele sempre nos perdoa. É pura misericórdia! Vamos a Jesus!
Voltemo-nos à Virgem Maria: o seu coração imaculado, coração de mãe, vivenciou ao máximo a “compaixão” de Deus, especialmente na hora da paixão e da morte de Jesus. Que Maria nos ajude a ser mansos, humildes e misericordiosos com os nossos irmãos.

É preciso deixar-se amar por Deus

É preciso deixar-se amar por Deus
Meditação do papa na festa do Sagrado Coração de Jesus
CIDADE DO VATICANO, 07 de Junho de 2013 (Zenit.org) - Deixar-se amar por Deus com ternura é difícil, mas é a graça que temos que pedir dele. Este foi o convite do papa Francisco na missa desta manhã na Casa Santa Marta.
Concelebrou com ele o bibliotecário da Santa Igreja Romana, dom Jean-Louis Bruguès, e o pe. Sergio Pagano. Assistiu à missa parte do pessoal do Arquivo Secreto Vaticano.
“Jesus nos amou muito, não com palavras, mas com fatos e com a vida”, repetiu várias vezes o papa na homilia de hoje, solenidade do Sagrado Coração de Jesus, que ele chama de "festa do amor", de um "coração que amou muito". Um amor que, como repetia Santo Inácio, "se manifesta mais nas obras do que nas palavras" e que é especialmente "mais um dar-se do que um receber".
Bases do amor de Deus
“Estes dois critérios”, destacou o papa, “são os pilares do amor verdadeiro”, e é o Bom Pastor quem representa todo o amor de Deus. Ele conhece as suas ovelhas uma por uma, "porque o amor não é abstrato nem geral: é o amor por cada um".
"Um Deus que se torna próximo por amor, que caminha com o seu povo, e esse caminhar chega a um ponto inimaginável. Nunca podemos imaginar que o próprio Deus se torna um de nós e caminha conosco, fica conosco, permanece na sua Igreja, continua presente na Eucaristia, continua na sua Palavra, permanece nos pobres, fica conosco para caminhar! E isto é estar perto: é o pastor perto do seu rebanho, das suas ovelhas, que ele conhece uma por uma".
Explicando uma passagem do livro do profeta Ezequiel, Francisco ressalta outro aspecto do amor de Deus: o cuidado da ovelha perdida e da ovelha ferida e doente:
"A ternura! Deus nos ama ternamente! Nosso Senhor conhece aquela linda ciência das carícias, aquela ternura de Deus. Não se ama com as palavras. Ele se aproxima, chega perto, e nos dá aquele amor com ternura. Proximidade e ternura! Esses dois estilos de Deus que se torna próximo e que dá todo o seu amor inclusive nas menores coisas: com a ternura. E é um amor forte, porque a proximidade e a ternura nos fazem ver a fortaleza do amor de Deus".
Chamados a amar
"Mas vocês amam como eu os amei?", foi a pergunta que o papa destacou, reforçando que o amor deve "ser próximo", deve ser "como o do bom samaritano" e, em particular, ter “o sinal da proximidade e da ternura”. Mas como devolver todo esse amor a Deus? Este foi o outro ponto em que Francisco se concentrou: "amando-o", ficando "perto dele", sendo "ternos com Ele". Mas isto não é suficiente:
"Pode parecer uma heresia, mas é a maior das verdades! Mais difícil do que amar a Deus é deixar-se amar por Ele! A maneira de devolver tanto amor é abrir o coração e deixar-se amar. Deixar que Ele venha até nós e senti-lo perto. Permitir que ele seja terno, que ele nos acaricie. Isso é muito difícil: deixar-se amar por Ele. E é isto o que talvez devamos pedir hoje na missa: Senhor, eu quero te amar, mas me ensina essa difícil ciência, esse difícil hábito de me deixar amar por ti, de te sentir por perto e de sentir a tua ternura! Que o Senhor nos dê esta graça".


terça-feira, 21 de maio de 2013

O vento, o fogo, as línguas


Pentecostes e os sinais do Espírito Santo
Por Osvaldo Rinaldi
ROMA, 20 de Maio de 2013 (Zenit.org) - O Espírito Santo desce poderoso do céu sobre os discípulos reunidos no cenáculo, chega ao final de um dia solene em que já não se esperava mais nada, desce para dar inicio a um novo e único tempo, o tempo da Igreja que durará até a parusia, o retorno glorioso de Jesus Cristo até o fim dos tempos.
O Espírito Santo há sua origem celeste, é pré-anunciado por um rombo, um sinal ruidoso para indicar com certeza sua proveniência. “De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados”(Atos 2,2). Exatamente porque o Espírito Santo vem do alto, de Deus, tem a capacidade de encher até a borda nossas vidas, nossos corações.
Para receber o dom do Espírito Santo é necessário permanecer fiel à exortação de viver a oração na procura incessante de receber o mesmo Espírito de Deus, para produzir frutos de compaixão amorosa, mansidão, humildade, paciência, alegria, paz.
E todos esses frutos não podem ser mantidos para si, devem ser comunicados, devem ser compartilhados com os outros. Por esta razão “apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles”(Atos 2, 3). O Espírito Santo desce como língua porque quer falar ao coração do homem pelo homem.
O Espírito Santo se manifesta como uma língua de fogo porque quer acender na alma dos discípulos, o ardor, o desejo de comunicar ao mundo o calor do amor de Deus que se encarnou, que morreu e ressuscitou para a nossa salvação.
O Espírito Santo aparece como muitas línguas porque quer proclamar a Palavra de Deus, os acontecimentos da salvação, para que a pessoa de Jesus Cristo se torne compreensível para os povos de todas as nações, raças, tribos, etnias: “ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.”(Atos 2,4).
O Espírito Santo com a sua descida produz comunhão, suscita partilha. Os discípulos fechados no cenáculo por medo dos judeus, se encontram, num determinado momento, fora da sala no andar de cima, com uma coragem que não tinham antes. O Espírito Santo afasta seus medos, rompe a solidão interior, impulsiona-os a compartilhar o anúncio do Evangelho.
Hoje se cumpre a promessa feita por Jesus em seu discurso de despedida, quando estava no cenáculo: “ e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece, mas vós o conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós. (Jo 14,16-17).
Os discípulos não estão mais sozinhos, receberam a companhia de outro Consolador, o Espírito Santo, para viver sempre em comunhão com Ele. O Espírito Santo é apresentado por Jesus como o Espírito da verdade, para tornar o homem verdadeiramente livre.
Quanto precisamos da verdade que nos liberta dos medos, das angústias que derivam da nossa pouca fé.
O Espírito da verdade é a arma eficaz para superar esses medos. Mas o Espírito Santo é um dom que deve ser invocado, desejado e aceito. E é por isso que o mundo não pode receber, porque não é capaz de pedir, por que não quer invocá-lo, porque não tem espaço para acolhê-lo. O coração do homem do mundo está cheio de outras coisas, está cheio de soberba, orgulho, presunção.
O mundo tem a presunção de ser auto-suficiente, tem a ilusão de ser capaz de fazer sem Deus. Tudo isso acontece porque o homem não vê o Espírito Santo, não é capaz de reconhecê-lo.
Mas para os apóstolos não é assim, porque terão o grande privilégio de poder ouvi-lo, no silêncio de suas almas, terão a possibilidade de serem instruídos pela sabedoria que vem de Deus.
Sim, o Espírito Santo enquanto Deus tem a missão de recordar e ensinar tudo o que viu e ouviu do Filho de Deus. A primeira tarefa do Espírito Santo é ensinar uma mensagem que precisa ser sempre aprofundada, embora seja a mesma há dois mil anos. A Palavra de Deus é sempre a mesma, mas o homem está em constante transformação. O que ontem era incompreensível o espírito de verdade quer fazer-nos compreender para tornar a nossa existência mais alegre e menos ansiosa.
O ensinamento realizado pelo Espírito não é uma lição de escola ensinada por um professor sentado atrás de sua mesa. O Espírito Santo fala na intimidade do coração, inspirando o que pensar, dizer, fazer. A obra incomparável do Espírito Santo é consolar com sua presença discreta, é romper a solidão do homem com Deus, é recordar à alma humana as palavras de vida eterna pronunciadas por Jesus.
Como precisamos recordar os eventos que marcaram a nossa vida de fé. O Espírito Santo nos ajuda neste serviço da memória, lembrando-nos o que fomos e o que somos agora após a intervenção de Deus em nossas vidas

Pedro era um pecador, mas não um corrupto

Francisco na sua homilia na Santa Marta convida a deixar que Jesus nos encontre
CIDADE DO VATICANO, 17 de Maio de 2013 (Zenit.org) - Ser pecadores não é o problema central, o problema é não deixar-se transformar no amor do encontro com Cristo, porque Pedro era um pecador, mas não um corrupto, pecadores sim, todos: corruptos, não. Este foi o tema central da homilia da missa diária do Papa Francisco na capela da sua residência em Santa Marta, transmitida pela Rádio Vaticano.
No evangelho do dia Jesus ressuscitado pergunta três vezes a Pedro se o ama. “É um diálogo de amor entre o Senhor e seu discípulo” indica Francisco e lembra dos encontros que Pedro teve com Jesus. Começando com o ‘Segue-me” ao ‘Te chamarás Cefas, Pedra’, ao ‘Afásta-te de mim, Satanás”, “humilhação que Pedro aceita”, diz o Papa.
E Francisco lembra aos presentes que Pedro se considerava bom, e no Getsêmani até mesmo desembainha sua espada para defender a Jesus, mas depois o nega três vezes".
E quando Jesus o observa com aquele olhar tão belo, indica o Papa, Pedro chora. “Jesus nestes encontros amadurece a alma de Pedro”, no amor.
"Pedro sente dor ao ver que por três vezes Jesus lhe pergunta “Me amas?” Essa dor, essa vergonha... Um grande homem Pedro..., pecador, pecador. Mas o Senhor lhe faz sentir e a nós que todos somos pecadores: o problema é não arrepender-se do pecado, não ter vergonha do que fizemos. Esse é o problema. E Pedro tem essa vergonha, essa humildade, não é? O pecado de Pedro é um fato que com o coração grande que ele tinha, o leva a um encontro novo com Jesus, à alegria do perdão”.
E o Senhor não abandona a sua promessa, quando lhe disse: "Tu es Pedra”, e agora lhe diz: “Apascenta as minhas ovelhas” e entrega o seu rebando a um pecador.
O Papa afirma: "Pedro era um pecador, mas não um corrupto, pecadores sim, todos: corruptos, não”. E o santo padre conta: “Uma vez fiquei sabendo de um sacerdote, um bom pároco que trabalha bem: foi nomeado bispo e ele sentia vergonha porque não se sentia digno. Era um tormento espiritual. E se aproximou do confessor, que lhe escutou e lhe disse: “Não te assustes, porque se depois de tudo o que fez Pedro, ele foi foi eleito Papa... Siga adiante!”. O Senhor é assim. Nos faz amadurecer nos muitos encontros que temos com Ele, apesar das nossas debilidades, quando as reconhecemos, e com nossos pecados”...
Pedro “se deixou modelar” nos vários encontros com Jesus e isso “serve para todos nós, porque estamos na mesma rua”.
E o Papa reitera: "Pedro é um grande" não porque seja bom, mas porque “tem um coração nobre que o leva a esta dor, a esta vergonha e a levar seu trabalho de apaciguar as ovelhas”.
"Peçamos ao Senhor hoje – conclui Francisco - que este exemplo de vida de um homem que se encontra continuamente com o Senhor” nos ajude “a seguir adiante procurando o Senhor”.
Mas, mais ainda, "é deixar-nos encontrar pelo Senhor: Ele está perto de nós. Tantas vezes".

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Prefiro uma Igreja acidentada por sair, do que doente por fechar-se


Chamada de Francisco aos leigos na Vigília de Pentecostes
Por Salvatore Cernuzio
ROMA, 19 de Maio de 2013 (Zenit.org) - Na Vigília de Pentecostes da “Jornada com os movimentos, as novas comunidades, as associações e as organizações laicais”, o santo padre Francisco escutou vários testemunhos e perguntas que lhe permitiram medir pela primeira vez durante o seu pontificado, a grande força viva que são hoje em dia os leigos na Igreja.
Vieram à Praça de São Pedro membros de cerca de cento e vinte movimentos com presença na Itália e a nível mundial.
Depois da entronização do ícone de Nossa Senhora, que com a antiga invocação de Salus Populi Romani presidiu o encontro, os assistentes e o papa escutaram os testemunhos de vários leigos que pela sua atividade profissional, sua vida cristã ou pelo único fato de estar num país sem liberdade religiosa, devem testemunhar a sua fé.
Foi importante ouvir o irmão de Shahbaz Bhatti, o ex-ministro católico das Minorias no Paquistão, assassinado em Islamabad em 2011 pelos islâmicos por causa da sua oposição à lei da blasfêmia.
Dar resposta à fé
No evento, que se enquadra no calendário do "Ano da Fé", o papa respondeu espontaneamente às perguntas formuladas por vários representantes, perguntas que ele mesmo confessou "conhecer de antemão".
Estes, em nome dos leigos do todo mundo, pediram ao Papa uma luz sobre questões de evangelização, de testemunho cristão e um maior esclarecimento sobre aquela chamada de Francisco para que a Igreja seja "pobre e para os pobres".
Sobre a transmissão da fé, insistiu em que esta deve ser apresentada, porque se ninguém dá o primeiro anúncio, o futuro crente não poderá encontrar-se com Jesus. Voltou a lembrar que um novo encontro com o Pai pode dar-se no confessionário, “onde Ele sempre nos espera”.
Alertou, porém, que o maior inimigo da fragilidade, é o medo. Então, insistiu que ao sentir-se inseguro, é preciso saber que “ali está o Senhor”.
Comunicar a Cristo
Em resposta à segunda pergunta, sobre como comunicar a fé hoje, ensinou que isso não é questão de buscar uma eficácia nem consiste em fazer estratégia, “que são somente ferramentas secundárias”.
O que deve ser feito, acrescentou, é "comunicar Jesus Cristo, e não mais Francisco", em alusão a que o verdadeiro líder da Igreja é Cristo e não o Papa.
Convidou a orar mais, para “deixar-se guiar por ele”. Lembrou a passagem em que Pedro teve uma visão de que o evangelho tinha que ser levado aos gentíos, para insistir em que é necessário deixar-se “surpreender” por Jesus, deixando que o Espírito de Deus atue dentro do evangelizador, o leve para frente.
Purificar a questão política
Questionado sobre como construir uma ética pública e um modelo melhor para o desenvolvimento humano, recomendou que o melhor testemunho que pode ser dado, é uma vivência autêntica do evangelho nesses espaços.
Alertou, no entanto, que a Igreja "não é um movimento político, nem uma estrutura bem organizada", nem sequer deve ser comparada a uma ‘ONG’. Porque quando se faz assim, continuou, “perde-se o sal, não tem sabor, torna-se uma organização vazia, levada pelo eficientismo”.
O oposto deve ser, no pensamento de Francisco, “o desenvolvimento da solidariedade da partilha". Porque, de acordo com o que ele disse, "o que está em crise é o homem, que pode ser destruído ao ser  imagem de Deus."
Ressaltou que ao estar diante de uma crise desta magnitude, o homem "é despojado da ética, em que tudo é possível e tudo pode ser feito".
Ele criticou o atual sistema econômico, que se preocupa com as grandes quedas das instituições financeiras e não pelos que morrem de fome pelas ruas.
Não fechar-se nem isolar-se
Diante dessa realidade, convidou a Igreja a não fechar-se ou isolar-se. Exortou a “não fechar-se na paróquia, com o movimento, entre os que pensamos da mesma forma”. Porque quando se fecha, “fica doente”.
Convidou novamente a Igreja “para sair de si mesma, em direção à periferia, a dar testemunho do evangelho e a encontrar-se com os demais”, em clara resposta ao mandamento de Jesus de “Ir”.
"Prefiro uma Igreja acidentada, do que doente por fechar-se”, disse. E criticou aquelas “estruturas caducas” que “não nos fazem livres, mas escravos."
Disse também que é preciso que aconteça uma "cultura do encontro, da amizade, da falar até mesmo com aqueles que não pensam como nós, até mesmo que tem outra fé, porque todos são filhos de Deus".
Uma Igreja pobre
Uma das peguntas referiu-se à expressão que Francisco utilizou dois depois do início do seu pontificado, de que ele gostaria de uma “Igreja pobre e para os pobres”.
A este respeito – e com a atenção mundial colocada nas suas palavras - , explicou que basta “sair para encontrar a pobreza”. Lamentou que hoje em dia encontrar um mendigo morto de frio ou fome pela rua já não seja uma notícia ...
Criticou aqueles que permanecem indiferentes a esta realidade, especialmente aqueles cristãos "que falam sobre teologia, enquanto tomam chá", uma clara referência à sua homilia de dias atrás, onde disse que não precisa de “cristãos de salão” neste momento na Igreja.
Muito pelo contrário, continuou, "nós temos que ter coragem e ir ao encontro daqueles que são a carne de Cristo”. Porque para Francisco, a pobreza não é uma categoria filosófica ou sociológica, mas teológica "Porque o Filho de Deus se fez pobre".
E se a Igreja não vai em direção à carne de Cristo que está nos pobres, cai na “mundanidade espiritual”, um conceito muito ligado aos perigos do cristianismo de salão.
Concluiu encorajando a todos a proclamar o Evangelho com coragem e ao mesmo tempo com paciência. E convidou a unir-se aos cristãos “que sofrem tanto, que fazem a experiência do limite entre a vida e a morte”, reiterando o seu apelo por uma verdadeira liberdade religiosa para todos.
"Para todos", porque de acordo com Francisco, "todos devem ser livres na sua confissão religiosa, porque são filhos de Deus".
Após a cerimônia, o Papa cumprimentou os líderes das mais importantes realidades laicais do mundo, com os quais conversou durante alguns segundos entre comentários e sorrisos.
Hoje, domingo, solenidade de Pentecostes, o Santo Padre presidirá uma celebração eucarística na praça de São Pedro, para a qual continuam chegando os peregrinos pertencentes a centenas de movimentos e organizações apostólicas.