quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Papa Francisco, na primeira grande entrevista após a eleição: do que a Igreja mais precisa é curar feridas e aquecer coração dos fiéis

A revista "Brotéria", propriedade dos Jesuítas Portugueses, publica esta quinta-feira no seu site uma entrevista exclusiva que o papa Francisco concedeu a 16 publicações periódicas da Companhia de Jesus ao longo de três encontros, a 19, 23 e 29 de agosto, no Vaticano.
O entrevistador, padre Antonio Spadaro, diretor da revista italiana "La Civiltà Cattolica", estará em Portugal no início de outubro para participar nas Jornadas Nacionais das Comunicações Sociais, marcadas para Fátima.
A primeira grande entrevista que o papa concede após a sua eleição, a 13 de março, será também publicada na revista "Brotéria" que ficará disponível na próxima semana.
"Quem é Jorge Mario Bergoglio?", "viver em comunidade", "ouvir os outros", "santidade para todos", Igreja de portas abertas", "o que a Igreja mais precisa", "uma Igreja à procura de novos caminhos", "Igreja e homossexualidade", "aborto, casamento homossexual e métodos contracetivos", "anunciar o essencial está primeiro do que as normas morais", "sinodalidade", "mulher na Igreja", "perigo da instrumentalização do rito litúrgico anterior ao Concílio Vaticano II", "encontrar Deus no dia a dia, "paciência com Deus", "desconfiar de quem diz saber tudo de Deus", "a surpresa de Deus", "soluções disciplinares e segurança doutrinal", "referências culturais", "fé de fronteira", "pensamento da Igreja" e "oração", são alguns dos temas e questões abordadas na entrevista, de que apresentamos alguns excertos.
Os subtítulos foram escolhidos pela redação do site da Pastoral da Cultura.

Quem é Jorge Mario Bergoglio?
Não sei qual possa ser a definição mais correta… Eu sou um pecador. Esta é a melhor definição. E não é um modo de dizer, um género literário. Sou um pecador. Sim, posso talvez dizer que sou um pouco astuto, sei mover-me, mas é verdade que sou também um pouco ingénuo. Sim, mas a síntese melhor, aquela que me vem mais de dentro e que sinto mais verdadeira, é exatamente esta: “Sou um pecador para quem o Senhor olhou”. Sou alguém que é olhado pelo Senhor. A minha divisa, "Miserando atque eligendo", senti-a sempre como muito verdadeira para mim.

Viver em comunidade
Da Companhia impressionaram-me três coisas: o espírito missionário, a comunidade e a disciplina. Isto é curioso, porque eu sou um indisciplinado nato, nato, nato. Mas a sua disciplina, o modo de organizar o tempo, impressionaram-me muito. (...)
«E depois uma coisa para mim verdadeiramente fundamental é a comunidade. Procurava sempre uma comunidade. Eu não me via padre sozinho: preciso de uma comunidade. É mesmo isso que explica o facto de eu estar aqui

Ouvir os outros
Na minha experiência de superior na Companhia, para dizer a verdade, nem sempre me comportei assim, ou seja, fazendo as necessárias consultas. E isso não foi uma boa coisa. (...)
Agora oiço algumas pessoas que me dizem: “Não consulte demasiado e decida”. Acredito, no entanto, que a consulta é muito importante. Os Consistórios e os Sínodos são, por exemplo, lugares importantes para tornar verdadeira e ativa esta consulta. É necessário torná-los, no entanto, menos rígidos na forma. Quero consultas reais, não formais. A consulta dos oito cardeais, este grupo outsider, não é uma decisão simplesmente minha, mas é fruto da vontade dos cardeais, tal como foi expressa nas Congregações Gerais antes do Conclave. E quero que seja uma consulta real, não formal.

Santidade para todos
Vejo a santidade no povo de Deus paciente: uma mulher que cria os filhos, um homem que trabalha para levar o pão para casa, os doentes, os sacerdotes idosos com tantas feridas mas com um sorriso por terem servido o Senhor, as Irmãs que trabalham tanto e que vivem uma santidade escondida. Esta é, para mim, a santidade comum. Associo frequentemente a santidade à paciência: não só a santidade como hypomoné, o encarregar-se dos acontecimentos e circunstâncias da vida, mas também como constância no seguir em frente dia após dia. Esta é a santidade da "Igreja militante" de que fala também Santo Inácio. Esta é também a santidade dos meus pais: do meu pai, da minha mãe, da minha avó Rosa, que me fez tanto bem.

Igreja, casa para todos
Esta Igreja com a qual devemos “sentir” é a casa de todos, não uma pequena capela que só pode conter um grupinho de pessoas selecionadas. Não devemos reduzir o seio da Igreja universal a um ninho protetor da nossa mediocridade. 

O que a Igreja mais precisa
Vejo com clareza que aquilo de que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o açúcar altos. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar de tudo o resto. Curar as feridas, curar as feridas... E é necessário começar de baixo. (...)
A Igreja por vezes encerrou-se em pequenas coisas, em pequenos preceitos. O mais importante, no entanto, é o primeiro anúncio: “Jesus Cristo salvou-te” (...)
Sonho com uma Igreja Mãe e Pastora. Os ministros da Igreja devem ser misericordiosos, tomar a seu cargo as pessoas, acompanhando-as como o bom samaritano que lava, limpa, levanta o seu próximo. Isto é Evangelho puro. Deus é maior que o pecado. As reformas organizativas e estruturais são secundárias, isto é, vêm depois. A primeira reforma deve ser a da atitude. Os ministros do Evangelho devem ser capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e mesmo de descer às suas noites, na sua escuridão, sem perder-se. O povo de Deus quer pastores e não funcionários ou clérigos de Estado. Os bispos, em particular, devem ser capazes de suportar com paciência os passos de Deus no seu povo, de tal modo que ninguém fique para trás, mas também para acompanhar o rebanho que tem o faro para encontrar novos caminhos».

Uma Igreja à procura de novos caminhos
Em vez de ser apenas uma Igreja que acolhe e recebe, tendo as portas abertas, procuramos mesmo ser uma Igreja que encontra novos caminhos, que é capaz de sair de si mesma e ir ao encontro de quem não a frequenta, de quem a abandonou ou lhe é indiferente. Quem a abandonou fê-lo, por vezes, por razões que, se forem bem compreendidas e avaliadas, podem levar a um regresso. Mas é necessário audácia, coragem.

Igreja e homossexualidade
Devemos anunciar o Evangelho em todos os caminhos, pregando a boa nova do Reino e curando, também com a nossa pregação, todo o tipo de doença e de ferida. Em Buenos Aires recebia cartas de pessoas homossexuais, que são “feridos sociais”, porque me dizem que sentem como a Igreja sempre os condenou. Mas a Igreja não quer fazer isto. Durante o voo de regresso do Rio de Janeiro disse que se uma pessoa homossexual é de boa vontade e está à procura de Deus, eu não sou ninguém para julgá-la. Dizendo isso, eu disse aquilo que diz o Catecismo. A religião tem o direito de exprimir a própria opinião para serviço das pessoas, mas Deus, na criação, tornou-nos livres: a ingerência espiritual na vida pessoal não é possível. Uma vez uma pessoa, de modo provocatório, perguntou-me se aprovava a homossexualidade. Eu, então, respondi-lhe com uma outra pergunta: “Diz-me: Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou rejeita-a, condenando-a?” É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia. Quando isto acontece, o Espírito Santo inspira o sacerdote a dizer a coisa mais apropriada.

Não é preciso estar sempre a falar de aborto, casamento homossexual e métodos contracetivos
Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso dos métodos contracetivos. Isto não é possível. Eu não falei muito destas coisas e censuraram-me por isso. Mas quando se fala disto, é necessário falar num contexto. De resto, o parecer da Igreja é conhecido e eu sou filho da Igreja, mas não é necessário falar disso continuamente.

Primeiro, anunciar o essencial; só depois as consequências morais
Os ensinamentos, tanto dogmáticos como morais, não são todos equivalentes. Uma pastoral missionária não está obcecada pela transmissão desarticulada de uma multiplicidade de doutrinas a impor insistentemente. O anúncio de caráter missionário concentra-se no essencial, no necessário, que é também aquilo que mais apaixona e atrai, aquilo que faz arder o coração, como aos discípulos de Emaús. Devemos, pois, encontrar um novo equilíbrio; de outro modo, mesmo o edifício moral da Igreja corre o risco de cair como um castelo de cartas, de perder a frescura e o perfume do Evangelho. A proposta evangélica deve ser mais simples, profunda, irradiante. É desta proposta que vêm depois as consequências morais.

Sinodalidade
A sinodalidade vive-se a vários níveis. Talvez seja tempo de mudar a metodologia do sínodo, porque a atual parece-me estática. Isto poderá também ter valor ecuménico, especialmente com os nossos irmãos ortodoxos. Deles se pode aprender mais sobre o sentido da colegialidade episcopal e sobre a tradição da sinodalidade. O esforço de reflexão comum, vendo o modo como se governava a Igreja nos primeiros séculos, antes da rutura entre Oriente e Ocidente, dará frutos a seu tempo. Nas relações ecuménicas isto é importante: não só conhecer-se melhor, mas também reconhecer o que o Espírito semeou nos outros como um dom também para nós. Quero prosseguir a reflexão sobre como exercitar o primado petrino, já iniciada em 2007 pela Comissão Mista, e que levou à assinatura do documento de Ravena. É preciso continuar neste caminho. 

Mulher na Igreja
É necessário, pois, aprofundar melhor a figura da mulher na Igreja. É preciso trabalhar mais para fazer uma teologia profunda da mulher. Só realizando esta etapa se poderá refletir melhor sobre a função da mulher no interior da Igreja. O génio feminino é necessário nos lugares em que se tomam as decisões importantes. O desafio hoje é exatamente esse: refletir sobre o lugar específico da mulher, precisamente também onde se exerce a autoridade nos vários âmbitos da Igreja.

Perigo da instrumentalização do rito litúrgico anterior ao Concílio Vaticano II
O trabalho da reforma litúrgica foi um serviço ao povo como releitura do Evangelho a partir de uma situação histórica concreta. Sim, existem linhas de hermenêutica de continuidade e de descontinuidade. Todavia, uma coisa é clara: a dinâmica de leitura do Evangelho no hoje, que é própria do Concílio, é absolutamente irreversível. Depois existem questões particulares, como a liturgia segundo o Vetus Ordo [rito litúrgico da missa substituído em 1969, após o Concílio Vaticano II]. Penso que a escolha do Papa Bento XVI foi prudente, ligada à ajuda a algumas pessoas que têm esta sensibilidade particular. Considero, no entanto, preocupante o risco de ideologização do Vetus Ordo, a sua instrumentalização.

Encontrar Deus no dia a dia
Deus está, certamente, no passado porque está nas pegadas que deixou. E está também no futuro como promessa. Mas o Deus “concreto”, digamos assim, é hoje. Por isso, os queixumes nunca, nunca, nos ajudam a encontrar Deus. As queixas de hoje de como o mundo anda “bárbaro” acabam por fazer nascer dentro da Igreja desejos de ordem entendidos como pura conservação, defesa. Não. Deus deve ser encontrado no hoje.

Paciência com Deus
Deus encontra-Se no tempo, nos processos em curso. Não é preciso privilegiar os espaços de poder relativamente aos tempos, mesmo longos, dos processos. Devemos encaminhar processos, mais que ocupar espaços. Deus manifesta-Se no tempo e está presente nos processos da História. Isto faz privilegiar as ações que geram dinâmicas novas. E exige paciência, espera».

Desconfiar de quem diz saber tudo de Deus
Neste procurar e encontrar Deus em todas as coisas fica sempre uma zona de incertezas. Tem de ser assim. Se uma pessoa diz que encontrou Deus com certeza total e não aflora uma margem de incerteza, então não está bem. Para mim, esta é uma chave importante. Se alguém tem a resposta a todas as perguntas, esta é a prova de que Deus não está com ela. Quer dizer que é um falso profeta, que usa a religião para si próprio. Os grandes guias do povo de Deus, como Moisés, sempre deixaram espaço para a dúvida. Devemos deixar espaço ao Senhor, não às nossas certezas. É necessário ser humilde. A incerteza existe em cada discernimento verdadeiro que se abre à confirmação da consolação espiritual. 

Procurar Deus: uma tarefa de todas as horas
«O risco no procurar e encontrar Deus em todas as coisas é, pois, a vontade de explicar demasiado, de dizer com certeza humana e arrogância: “Deus está aqui”. Encontraremos somente um deus à nossa medida. A atitude correta é a agostiniana: procurar a Deus para O encontrar e encontrá-l’O para O procurar sempre. (...)

A surpresa de Deus
Encontra-se Deus caminhando, no caminho. E neste ponto alguém poderia dizer que isto é relativismo. É relativismo? Sim, se é mal interpretado, como espécie de panteísmo indistinto. Não, se é interpretado em sentido bíblico, onde Deus é sempre uma surpresa e, portanto, não sabes nunca onde e como O encontras, não és tu a fixar os tempos e os lugares do encontro com Ele. É necessário, portanto, discernir o encontro. Por isso, o discernimento é fundamental».

Quem procura soluções disciplinares ou tende exageradamente à segurança doutrinal, não vai longe...
Se o cristão é restauracionista, legalista, se quer tudo claro e seguro, então não encontra nada. A tradição e a memória do passado devem ajudar-nos a ter a coragem de abrir novos espaços para Deus. Quem hoje procura sempre soluções disciplinares, quem tende de modo exagerado à “segurança” doutrinal, quem procura obstinadamente recuperar o passado perdido, tem uma visão estática e involutiva. E deste modo a fé torna-se uma ideologia entre tantas.

Referências culturais
Gostei muito de autores diferentes entre si. Gosto muitíssimo de Dostoiévski e Hölderlin. De Hölderlin quero recordar aquela poesia para o aniversário da sua avó, que é de grande beleza e que me fez tanto bem espiritual. É aquela que termina com o verso “Que o homem mantenha o que o rapaz prometeu”. Impressionou-me também porque amava muito a minha avó Rosa, e ali Hölderlin compara a sua avó a Maria que gerou Jesus, que para ele é o amigo da terra que não considerou ninguém estrangeiro. Li I Promessi Sposi três vezes e tenho-o agora sobre a mesa para reler. Manzoni deu-me muito. A minha avó, quando eu era criança, ensinou-me de cor o início dos Promessi Sposi: “Quel ramo del lago di Como, che volge a mezzogiorno, tra due catene non interrotte di monti…” (Dos dois braços que formam o lago de Como, um deles dirige-se para o sul, entre duas cadeias ininterruptas de montanhas…) Também gostei muito de Gerard Manley Hopkins.
Na pintura admiro Caravaggio: as suas telas falam-me. Mas também Chagall, com a sua Crucifixão Branca...».
Na música gosto muito de Mozart, obviamente. Aquele Et Incarnatus est da sua Missa em Dó é insuperável: leva-te a Deus! Gosto muito de Mozart executado por Clara Haskil. Mozart preenche-me: não posso pensá-lo, devo ouvi-lo. Gosto de ouvir Beethoven, mas prometeicamente. E o intérprete mais prometeico para mim é Furtwängler. E depois as Paixões de Bach. O trecho de Bach de que gosto muito é o Erbarme Dich, o pranto de Pedro da Paixão segundo São Mateus. Sublime. Depois, num outro nível, não tão íntimo, gosto de Wagner. Gosto de ouvi-lo, mas não sempre. A Tetralogia do Anel executada por Furtwängler no Scala nos anos 50 é, para mim, a melhor. Mas também o Parsifalexecutado em 1962 por Knappertsbusch.
Deveríamos também falar do cinema. La strada, de Fellini, é talvez o filme de que mais gostei. Identifico-me com aquele filme, no qual está implícita uma referência a São Francisco. Depois, creio ter visto todos os filmes com Anna Magnani e Aldo Fabrizi quando eu tinha entre 10 e 12 anos. Um outro filme de que muito gostei é Roma città aperta. Devo a minha cultura cinematográfica sobretudo aos meus pais, que nos levavam frequentemente ao cinema.
Em todo o caso, em geral gosto muito dos artistas trágicos, especialmente os mais clássicos. Há uma bela definição que Cervantes coloca na boca do bacharel Carrasco para fazer o elogio da história de Dom Quixote: “Os rapazes têm-na entre as mãos, os jovens leem-na, os adultos entendem-na, os velhos elogiam-na”. Esta, para mim, pode ser uma boa definição para os clássicos.
Apercebo-me de estar absorvido por estas suas referências e de ter o desejo de entrar na sua vida, pela porta das suas escolhas artísticas. Seria um percurso a fazer, imagino que longo. E incluiria também o cinema, do neorrealismo italiano até a A Festa de Babette. Vêm-me à mente outros autores e outras obras que ele citou noutras ocasiões, mesmo menores ou menos conhecidas ou locais: de Martín Fierro de José Hernández à poesia de Nino Costa, a Il grande esodo de Luigi Orsenigo. Mas penso também em Joseph Malègue e José María Pemán. E, obviamente, em Dante e Borges, mas também em Leopoldo Marechal, o autor de Adán BuenosayresEl banquete de Severo Arcángelo e Megafón o la guerra.

Fé de fronteira
Quando insisto na fronteira, de modo particular, refiro-me à necessidade para o homem da cultura de estar inserido no contexto em que opera e sobre o qual reflete. Está sempre à espreita o perigo de viver num laboratório. A nossa fé não é uma fé-laboratório, mas uma fé-caminho, uma fé histórica. Deus revelou-Se como história, não como um compêndio de verdades abstratas. Tenho medo dos laboratórios, porque no laboratório pegam-se nos problemas e levam-se para a própria casa, para domesticá-los, para os envernizar, fora do seu contexto. Não é preciso levar a fronteira para casa, mas viver na fronteira e ser audazes».

Pensamento da Igreja deve recuperar a genialidade
Quando é que uma expressão do pensamento não é válida? Quando o pensamento perde de vista o humano ou até quando tem medo do humano ou se deixa enganar sobre si mesmo. É o pensamento enganado que pode ser representado como Ulisses diante do canto das sereias, ou como Tannhäuser, rodeado numa orgia por sátiros e bacantes, ou como Parsifal, no segundo ato da ópera wagneriana, no castelo de Klingsor. O pensamento da Igreja deve recuperar genialidade e entender sempre melhor como é que o homem se compreende hoje, para desenvolver e aprofundar o próprio ensino.

Oração
Rezo o Ofício [Liturgia das Horas] todas as manhãs. Gosto de rezar com os Salmos. Depois, a seguir, celebro a Missa. Rezo o Rosário. O que verdadeiramente prefiro é a Adoração vespertina, mesmo quando me distraio e penso noutra coisa ou mesmo quando adormeço rezando. Assim, à tarde, entre as sete e as oito, estou diante do Santíssimo durante uma hora, em adoração. Mas também rezo mentalmente quando espero no dentista ou noutros momentos do dia.
E a oração é para mim uma oração “memoriosa”, cheia de memória, de recordações, também memória da minha história ou daquilo que o Senhor fez na sua Igreja ou numa paróquia particular. (...)Mas, sobretudo, eu sei também que o Senhor tem memória de mim. Eu posso esquecer-me d’Ele, mas sei que Ele nunca, nunca, se esquece de mim. 

Antonio Spadaro
In Brotéria 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Espiritualidade: Apostolado da Oração debate proposta de recriação mundial

Encontro europeu decorre em Portugal até domingo

D.R.
Braga, 18 set 2013 (Ecclesia) – Braga acolhe desde hoje o encontro europeu dos secretários nacionais do Apostolado da Oração (A.O.), que vai ter como tema principal o processo de recriação da obra da Companhia de Jesus que se dedica à promoção da oração pessoal.
Os trabalhos visam enviar ao Papa Francisco o “documento que definirá a missão do A.O. nos próximos anos”, revelam os jesuítas, num comunicado enviado à Agência ECCLESIA.
A iniciativa que decorre na Casa da Torre, Soutelo, quer “consolidar uma rede mundial de oração ao serviço dos desafios da humanidade e da missão da Igreja, reconhecidos nas intenções mensais de oração do Papa”.
encontro prolonga-se até domingo, com a participação de 28 pessoas que representam “15 países de toda a Europa”.
Os diversos representantes do Apostolado da Oração vão apresentar e discutir o trabalho que está a ser realizado em cada país, “a partir do documento base de recriação do A.O., tendo em vista dinamizar este serviço eclesial e renovar a espiritualidade que lhe é própria”, assinalam na nota recebida.
No encontro vão analisar também o contributo do ambiente digital e das redes sociais para a “dinamização desta rede mundial de oração”; o sítio português www.passo-a-rezar.net será uma das propostas de oração através da internet que vai estar em debate.
O diretor geral delegado do Apostolado da oração, o padre jesuíta Cláudio Barriga, virá de Roma para participar neste encontro europeu dos secretários nacionais.
No último dia do encontro europeu, os participantes vão integrar a peregrinação nacional do A.O. a Fátima.
“Há dois anos reuniram-se mais de 80 000 pessoas, vindas de todo o país”, acrescenta o comunicado.
O Apostolado da Oração chegou a Portugal em 1864 e está presente em todas as dioceses e na maioria das paróquias nacionais.
CB/OC
   

PAPA FRANCISCO


Não há perdão fora da Igreja
É como a viúva que sabe que os seus filhos são seus e deve defendê-los e levá-los ao encontro com o Esposo disse o Papa Francisco em sua homilia na Santa Marta
Por Luca Marcolivio
CIDADE DO VATICANO, 17 de Setembro de 2013 (Zenit.org) - A figura da viúva de Naim é um ícone de "viuvez" da Igreja que busca o encontro com o Senhor. Afirmou o papa Francisco durante a homilia desta manhã em Santa Marta.
Inspirado pelo Evangelho de hoje (cf. Lc 7,11-17), o Pontífice destacou que“Jesus tem a capacidade de sofrer connosco de estar próximo de nós nos nossos sofrimentos fazendo-os seus”.
A viúva de Naim, além de seu marido, tinha perdido um filho e por esta razão, Jesus, em consideração a marginalização e a miséria das viúvas que viviam naquele tempo, mostra "grande compaixão" e um "amor especial".
A Igreja é em certo sentido “é viúva” enquanto seu “Esposo se foi e ela caminha na história, na esperança de encontrá-lo, de se encontrar com Ele. E ela será a esposa definitiva", comentou o Papa.
Em sua viuvez, no entanto, a Igreja se mostra “corajosa" e defende seus filhos "como a viúva que foi ao juiz corrupto para "defendê-los" e acabou vencendo”.
Outra viúva ilustre da narrativa bíblica, lembrou Francisco, é a mãe macabeia de sete crianças que são martirizadas por não renunciar a Deus. Esta falava para eles "no dialeto local, na primeira língua", bem como no dialeto nos fala a Igreja: o dialeto, observou o Papa, é a "linguagem da verdadeira ortodoxia" e do "catecismo", que nos dá força "na luta contra o mal".
Em sua viuvez, a Igreja está sempre em movimento, em busca de seu Esposo e "quando é fiel, sabe chorar", especialmente por seus filhos e reza por eles. No entanto, o Senhor diz: "Não chores. Eu estou contigo, eu acompanho-te, eu espero-te lá, nas nupcias, nas últimas núpcias, aquelas do cordeiro. Pára, este teu filho que estava morto, agora vive!”.
Da mesma forma Jesus faz quando, como acontece com o garoto Naim, nos levanta do nosso leito de morte que, em primeiro lugar, é a morte para o pecado. Em seguida, "nos dá o perdão" e "nos dá novamente a vida", Jesus nos restitui à nossa mãe.
O sacerdote, também, quando nos dá a absolvição, após a confissão "nos restitui à nossa mãe". “É ali que acaba a reconciliação, porque não há caminho de vida, não há perdão, não há reconciliação fora da mãe Igreja”,disse o Papa.
 Fico com vontade de pedir ao Senhor a graça de ser sempre confiante nesta mãe que nos defende, nos ensina, faz-nos crescer”,concluiu o Santo Padre.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Papa Francisco insurge-se contra a indiferença diante da pobreza e da morte | Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

Papa Francisco insurge-se contra a indiferença diante da pobreza e da morte | Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

Homilia de D. Manuel Clemente, na Missa de entrada no Patriarcado de Lisboa

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  Foto: Patriarcado de Lisboa  
Reedificar na paz a cidade de todos


1.Ação de graças
Caríssimos irmãos e estimados amigos:
Ao começar o ministério de que o Santo Padre Francisco me incumbiu no Patriarcado, o meu primeiro sentimento só pode ser de ação de graças a Deus, que assinala a sua presença nas nossas vidas decalcando-as no trilho pascal que Jesus Cristo unicamente abriu. É altura de retomar na Igreja de Lisboa o que nela comecei a viver há seis décadas e meia, do âmbito familiar ao paroquial e do paroquial ao diocesano, com tantos exemplos e estímulos de leigos, consagrados e clérigos que a minha memória evoca agradecida. Destaco de entre eles os meus três sucessivos Patriarcas, os Cardeais Cerejeira, Ribeiro e Policarpo, nos quais pude divisar o rosto paternal de Deus e o cuidado pastoral de Cristo. Ao Senhor D. José Policarpo, reafirmo a muita gratidão pela amizade com que sempre me acompanhou, bem como pela lucidez e generosidade do seu serviço eclesial, dentro e além do Patriarcado. Sei que posso contar com a sua oração e conselho, para o trabalho que agora inicio.
Nesta evocação, não poderia faltar a Igreja Portucalense, de cujo serviço episcopal me ocupei nos últimos anos. Foram muitos e muitíssimos os testemunhos que lá colhi de dedicação a Deus e ao próximo, tanto na quadrícula diocesano-paroquial como nos institutos de vida consagrada, movimentos e associações de fiéis, ou em centenas de instituições sociocaritativas e outras, com generosidade reforçada pelas atuais dificuldades da sociedade portuguesa e especialmente nortenha. Norte que, aliás, bem nos pode inspirar a todos, pela capacidade de resistir, recomeçar e inovar, que a sua população reiteradamente demonstra, em muitos dos seus intervenientes sociais, económicos e culturais. Nunca poderei agradecer devidamente o apoio e o carinho com que sempre fui acompanhado pela Diocese do Porto e o seu magnífico povo, bem como pelas respetivas instituições públicas e privadas. Quero, ainda assim, destacar a grande comunhão eclesial que sempre encontrei nos órgãos coletivos da pastoral diocesana e, acima de tudo, nos caríssimos Bispos Auxiliares e demais membros do Conselho Episcopal. Como tudo na Igreja de Cristo, só em comunhão se serve a comunhão: assim foi no Porto, como assim é e será em Lisboa.

2. Comunidades de acolhimento e missão
Importa insistir neste ponto e à luz do Evangelho que ouvimos: «Naquele tempo designou o Senhor setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. E dizia-lhes: “[…] Quando entrardes nalguma cidade dizei primeiro: ‘Paz a esta casa!’”»
Jesus envia os seus discípulos a todas as cidades e lugares aonde ele mesmo havia de ir. Este envio define permanentemente a Igreja e legitima-a como “cristã”, participando da missão de Cristo, que “por nós homens e para nossa salvação desceu dos Céus”. Ou, como lhe ouvimos dizer no quarto Evangelho, dirigindo-se ao Pai: «Assim como Tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo» (Jo 17, 18). Enviada a todas as cidades e lugares onde Cristo quer chegar, é função da Igreja abrir caminho a tudo o que assinala a sua vinda, superando egoísmos com partilhas e transformado solidões em convivências.
 Mas, falando de Igreja, falamos de comunidade e não de subjetivismos dispersos. Jesus envia-os “dois a dois”, como já aos Doze Apóstolos os reunira em grupo. Também e apenas deste modo se pode falar de Igreja “cristã”, pois Cristo nada faz essencialmente sem o Pai, ou eclesialmente o quer fazer sem os discípulos. Ensina-nos mesmo que, em Deus, a unidade é comunhão, quando prossegue: «Não rogo só por eles, mas também por aqueles que hão de crer em mim, por meio da sua palavra, para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e eu em Ti; para que assim eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu me enviaste» (Jo 17, 20-21).    
A Igreja não existe para si mesma. No Espírito de Cristo, existe para Deus Pai em permanente ação de graças e para o mundo em constante serviço. O que não se inclui neste duplo e coincidente movimento está a mais e exige conversão. O mundo, este nosso mundo de hoje em dia, precisa urgentemente de comunidades de acolhimento e missão.
Não sendo este um momento de detalhes programáticos, adianto, ainda assim, o que me parece mais óbvio: a Igreja de Lisboa seguirá as indicações do Sínodo dos Bispos, na sua Mensagem de outubro último, e da Conferência Episcopal Portuguesa, na sua Nota Pastoral de 11 de abril, que visa “promover a renovação da pastoral da Igreja em Portugal”. Tiraremos certamente daqui plano e programa que baste para os próximos tempos e na maior correspondência ao que o nosso povo espera da Igreja, dentro ou mesmo fora das fronteiras da crença. Permito-me mesmo sugerir aos meus irmãos do Patriarcado de Lisboa que tenham muito presentes os referidos documentos, na preparação do próximo ano pastoral a todos os níveis da Diocese e das comunidades, institutos, movimentos e associações. O Senhor envia-nos “dois a dois” e só em comunhão devemos trabalhar.
Diz-nos o texto sinodal: «É necessário criar comunidades acolhedoras, onde todos os marginalizados encontrem a sua casa, realizar experiências concretas de comunhão que, com a força ardente do amor […], atraiam o olhar desencantado da humanidade contemporânea» (Mensagem, nº 3). Comunidades que coletivamente o sejam, quer para acolher, quer procurando quem ainda não chegou, adianta mais à frente: «A obra da evangelização não é tarefa de alguns na Igreja, mas de comunidades eclesiais enquanto tais, onde se tem acesso à plenitude dos instrumentos do encontro com Jesus: a Palavra, os sacramentos, a comunhão fraterna, o serviço da caridade, a missão» (Mensagem, nº 8).
O Papa Francisco tem insistido repetidamente neste ponto, nos seus preenchidos meses de luminoso pontificado. E que importante é e será, que nas nossas comunidades todos possam encontrar sempre um “sim” à pessoa que são, mesmo quando não devamos conceder o que imediatamente nos peçam. Ainda aí imitaremos Cristo, que tanto evidenciava a misericórdia divina como não escondia a exigência evangélica, quer acolhendo quem vinha, quer propondo sempre mais e melhor, mesmo que difícil.

3. A consequência sociocultural do Evangelho
Nesta linha geral, a Mensagem do Sínodo dos Bispos dá-nos várias indicações, absolutamente a reter. Lembro apenas mais uma, aliás muito realçada nas recentes Jornadas Pastorais do Episcopado: «O gesto da caridade, por sua vez, exige ser acompanhado pelo empenho em favor da justiça, com um apelo que a todos envolve, pobres e ricos. Daí também a inserção da doutrina social da Igreja nos percursos da nova evangelização e o cuidado pela formação dos cristãos que se empenham em servir a convivência humana na vida social e política» (Mensagem, nº 12).
São muitas e globais, de facto, as consequências socioculturais do Evangelho, quer na concretização comunitária quer na aplicação social. Com a difusão do cristianismo e a sua feliz coincidência com as aspirações de tantas sabedorias e credos, foram pouco a pouco germinando sementes de vida, civilização e cultura de que não podemos abdicar sem pôr em risco a própria humanidade de nós todos: a dignidade da pessoa humana, na variedade enriquecida de raças e povos e sempre protegida e promovida da conceção à morte natural de cada um; a verdade familiar, na complementaridade homem-mulher, na geração e educação dos filhos e na entreajuda entre mais novos e mais velhos; uma visão desmitificada e responsável do conjunto da criação, que assim mesmo abriu espaço à ciência e ao autêntico desenvolvimento; a valorização do trabalho, como meio de realização pessoal e social de cada ser humano, sempre a garantir neste sentido; a distinção entre “Deus e César”, que abriu caminho à laicidade positiva das instituições políticas e à liberdade religiosa dos cidadãos; e o reconhecimento teórico e prático de quatro princípios indispensáveis a qualquer sociedade que se queira justa e realmente livre: a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a subsidiariedade e a solidariedade (cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nº 160).
Nos tempos que vivemos, quase para nos refazermos como sociedade reencontrada, os cristãos têm de oferecer a todos, crentes ou não crentes, o que recebem de Deus, como luz penetrante, verdade verificada e caridade plena. Com simplicidade, como São Pedro ensinava aos que viviam numa sociedade ainda por evangelizar: «No íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça; com mansidão e respeito, mantende limpa a consciência...» (1 Pe 3, 15-16). Tanto mais que, diante da complexidade dos problemas, as respostas nem sempre são fáceis, exigindo abertura, esclarecimento e estudo; e os que não concordam hoje connosco, poderão fazê-lo mais à frente, em caminhos necessariamente comuns. Como o próprio nome indica, a concórdia começa nos corações, quando ninguém desiste de ninguém, seja em que campo for.

4. Rumos a seguir
Concluo, caríssimos irmãos e estimados amigos, aludindo à referida Nota pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, visando promover a renovação da pastoral da Igreja em Portugal. Indica-nos ela sete oportunos “rumos”, dos quais destaco os três primeiros: O primado da graça, «sabendo todos bem, pastores e fiéis leigos, que o essencial da vivência cristã e dos frutos pastorais na vida da comunidade não depende tanto do nosso esforço de programação e da multiplicação dos nossos passos e afazeres, mas sobretudo da transformação da nossa mente e da conversão do nosso coração, operadas pela ação da graça de Jesus Cristo»; a comunhão para a missão, requerendo «comunidades que sejam autênticas escolas de vivência da fé e da comunhão, gerando entre todos os seus membros laços de fidelidade, de proximidade e de confiança, que se traduzam no serviço humilde da caridade fraterna»; e a missão generalizada, «como empenho da comunidade toda e de todos seus membros».
Falando de graça, comunhão e missão, imediatamente pensaremos n’Aquela em que tudo se realizou primeiro, no acolhimento e oferta de Jesus Cristo ao mundo. Retomemos o exemplo de Santa Maria, que em Nazaré acolheu em si mesma e em Belém ofereceu a todos o Verbo de Deus incarnado. - Lembrai-nos sempre, ó Mãe de Cristo e da Igreja, que isso mesmo havemos de ser: pleno acolhimento de Cristo e missão permanente no mundo, para reedificar na paz a cidade de todos!  

+ Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa
Santa Maria de Belém, 7 de julho de 2013

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Ouvir, ver e estar perto vão ser as primeiras ações de D. Manuel Clemente como Patriarca de Lisboa. No dia em que entra solenemente na Diocese de Lisboa, o Jornal VOZ DA VERDADE publica uma grande entrevista ao 17º Patriarca de Lisboa, que considera regressar transformado, após mais de seis anos como Bispo do Porto. Ao longo de oito páginas, D. Manuel Clemente garante que a experiência na comunidade cristã é insubstituível e define a evangelização como uma iniciação comunitária.

Foi nomeado Patriarca de Lisboa, pelo Papa Francisco, no passado dia 18 de maio. Como acolheu a nomeação do Santo Padre?
Acolhia-a com a naturalidade possível! Eu tenho dito isso, e corresponde à verdade. A última coisa que eu propriamente pedi foi para ser padre. Vinte anos depois, em 1999, o Papa João Paulo II nomeou-me para ser Auxiliar do Senhor D. José Policarpo, e fui Bispo Auxiliar durante sete anos; depois o Papa Bento XVI nomeou-me para o Porto, em 2007; agora o Papa Francisco nomeia-me para Lisboa. Tentamos permanecer como somos, disponíveis! Eu cada vez levo mais a sério – e costumo repetir isto porque acho que faz bem aos outros ouvirem – que é mesmo para levar a sério aquilo que Jesus diz e manda no Evangelho de São Mateus 6, 34: ‘Não vos preocupeis com o dia de amanhã, basta a cada dia a sua preocupação’. De maneira que me parece que é também um exercício de realismo. A Igreja é que nos pede, a Igreja escolhe! Isso também nos dá uma grande margem de liberdade interior. A gente faz o que pode; agora se fossemos nós a escolher ficávamos um pouco mais presos com a própria escolha. Assim, é a Igreja que escolhe, vamos e fazemos o que podemos e sabemos. Como diz o povo e bem: ‘Quem dá o que tem, a mais não é obrigado!’.

Quando foi conhecido o nome do Senhor D. Manuel para Patriarca de Lisboa, percebeu-se consenso na Igreja e na sociedade civil. Sente que esta unanimidade de opiniões pode trazer maior responsabilidade à sua nova missão?
Se eu pensasse muito nisso, era! Mas como referi, tenho pouco esse tipo de preocupações. Vou fazendo o melhor que posso, em cada momento, e depois se desiludir alguém, tenho pena; se outros ficarem contentes, graças a Deus!

Com esta nomeação regressa à sua diocese de origem, de onde saiu em 2007 para o Porto. Nestes seis anos que esteve longe de Lisboa, pôde acompanhar a vida do Patriarcado?
Sinceramente, acompanhei muito pouco. E a razão principal foi porque a Diocese do Porto preenche qualquer um que a sirva. A Diocese do Porto é uma realidade tão densa, tão forte – basta dizer que só o número de paróquias é quase quinhentas! E depois tem muitas instituições da Igreja, com vários tipos de ligação; muita ação sociocaritativa, em centros sociais, conferências vicentinas, misericórdias… Depois é uma diocese com muitas iniciativas culturais, porque pedem constantemente a participação de um Bispo. Nesse sentido, notei alguma diferença em relação a Lisboa, onde os meios seculares e os meios religiosos estão mais distintos; no Porto não. Eu cheguei a ir a locais onde em princípio não seria convidado a ir. Estou a lembrar-me, por exemplo, de centros republicanos e de outras instituições do género, que expressamente queriam o Bispo lá. Por isso, uma realidade como o Porto não dava para pensar em muito mais!

Foi importante a experiência pastoral como Bispo do Porto?
Foi muito importante! Também tenho dito, e insisto agora, eu não vou regressar a Lisboa como parti para o Porto. Vou regressar com mais de seis anos cheios de uma experiência eclesial e social fortíssima, que me transformou! Nesse sentido, ainda mais presente à sociedade, à cultura, porque as pessoas pedem e é importante estar lá!

Sente que é um ‘regresso a casa’?
Acaba sempre por ser! A ‘nossa casa’ começa por ser a da infância e a da adolescência. Depois, vamos passando por outras casas, mas o essencial está determinado, na maior parte dos casos. A Diocese de Lisboa – até pelo meu trabalho e a minha atividade, mesmo como jovem e ainda antes de ser seminarista, lá no escutismo do Oeste e depois como Bispo Auxiliar, quer na Região Pastoral do Oeste, quer na Região da Cidade – não deve ter um quilómetro quadrado onde eu não tenha passado! Onde aquelas casas, aquelas igrejas, aquelas árvores, aqueles caminhos não me digam qualquer coisa! Foi uma vida tão absorvida, que tudo quanto vá de Lisboa a Alcobaça está cá dentro!

O Senhor D. Manuel é natural de Torres Vedras. Como foi a sua educação cristã?
Foi muito simples e, utilizo outra vez a palavra, natural. Eu nasci numa família cristã, a minha mãe tinha sido catequista e voltou a sê-lo quando enviuvou e enchia a casa de catequese, sem nenhuma pieguice, com muita verdade, com muita certeza. As referências que eu tenho de Cristo, de Nossa Senhora, de Igreja são de origem! Não me lembro de nenhuma época da vida em que isto não tenha sido presente e forte.
Depois o ambiente paroquial. É preciso ver que a minha infância não tem televisão! Portanto, eu conhecia aquilo que me era apresentado diretamente. O que se fixa é o experiencial, direto! A passagem de casa para a comunidade cristã, concretamente para a paróquia de Torres Vedras, também foi muito bonita, porque era uma paróquia muito envolvente, toda a gente se conhecia. Tínhamos catequese na igreja, encostados aos altares laterais, e depois seguia-se a Missa, que era em latim, mas que depois lá nos explicavam. No final, vínhamos cá para fora brincar. Depois foram as récitas da catequese, a Primeira Comunhão, a Profissão de Fé… tudo era muito preenchido e o ano passava-se a correr! Embora, naquela altura, demorasse mais do que demora hoje. Digamos que foi uma absorção cristã que me fez acentuar muito a importância da experiência comunitária, que é insubstituível. Porque o cristianismo, de certa maneira, absorve, é assim um ar que se respira. É por isso que o cristianismo também é uma cultura! Também não é por acaso que nós abrimos o Evangelho e Jesus quando começa a proclamar o Evangelho cria a comunidade. É contemporâneo, é uma coisa da outra! O que é a evangelização se não uma iniciação comunitária? Sendo Deus, o próprio Deus, uma comunidade de amor!

Licenciou-se em História e só depois, em 1973, com 25 anos, entrou no seminário. De que forma Deus o inquietou?
Deus inquietou-me porque estava cá sempre! Também nesse aspeto vem à mente a palavra natural. Mesmo até a própria opção celibatária. Claro que quando eu era adolescente e quando era jovem, muitas vezes pensava em constituir uma família, ter uma profissão – ainda me lembro que quando estava na Faculdade de Letras o meu projeto era casar, ter muitos filhos, ter vida autárquica, porque já naquela altura achava interessante, ser professor de História com muitas atividades circum-escolares à mistura. Era assim, mais ou menos, o meu projeto de vida! Mas o que acontece é que o envolvimento em atividades de Igreja, digamos assim, era muito forte! Nesses anos, sobretudo no campo do escutismo, porque entre os 15 e os 25 anos o que eu fui foi escuteiro, o resto também ia fazendo, mas era quase um full time. Até porque nessa altura se lançou o escutismo do Oeste, a partir do agrupamento de Torres Vedras e do Seminário de Penafirme, e todos os fins-de-semana eram para andar para baixo e para cima, entre Alcobaça, Caldas e Lourinhã!
A pouco e pouco, a vida da Igreja e a dedicação a atividades apostólicas foi prevalecendo. Quando chego ao fim do curso, cá dentro já não havia espaço para mais nada! Nem sequer para construir uma família naturalmente e mesmo sacramentalmente. A minha família era a Igreja! E foi assim que as coisas acabaram por coincidir e não havia outro caminho se não o bater à porta da diocese e dizer: ‘Estou aqui!’.

Mas houve algum momento em que sentisse: ‘É por aqui!’?
Não, foi isto tudo! Eu não tenho uma Estrada de Damasco instantânea! Tenho a estrada toda!

Que memórias guarda do tempo de formação em seminário?
Muito boas! Nós eramos poucos: quando eu entrei para o seminário estavam lá oito e passámos a ser onze. Naquela casa, no Seminário dos Olivais, o chamado pavilhão B, onde está agora a Conferência Episcopal, já estava vazio, e nós concentrámo-nos todos num corredor do pavilhão A. Eu era o 12, e nunca tive outro quarto! Por isso, acontecia que nos dávamos muito de perto uns com os outros e sempre. De tal maneira que, quer no tempo de aulas, quer no tempo de Verão, fazíamos muitas coisas sempre em conjunto, em comum. Íamos para a Serra da Estrela – onde ainda hoje continuo a ir, quarenta anos depois! – e o tempo era todo passado em ambiente de Igreja, em atividades de Igreja. Também fizemos peregrinações, algumas até Roma, no fim do Ano Santo de 1975. São anos muito consistentes em tudo o que se fazia, quer nas aulas, quer no seminário, quer na iniciação pastoral nas paróquias, onde tínhamos atividades. Estava nessa altura a nascer a paróquia da Portela e eu sempre trabalhei com os adolescentes da Portela! Passou num instante, mas foi um tempo muito bom!

Recorda-se, certamente, do dia da sua ordenação, em 1979…
Claro! Foi num dia de semana, sexta-feira! Fui ordenado no dia 29 de junho, que é dia de São Pedro e São Paulo, ao fim da tarde, por ser dia da semana, na Sé de Lisboa. Foi um dia muito bonito! Fui só eu ordenado, os meus colegas de curso foram depois ordenados noutras alturas. Eramos três de Lisboa e dois de Santarém – um já está no Céu a assistir a esta nossa conversa!
Naquela altura, é preciso ver que os dias de ordenação tinham um relevo particular porque éramos muito poucos. Em toda a década de 70, ordenaram-se quinze padres para a Diocese de Lisboa! Em toda a década! Um já faleceu e foi meu colega Bispo, o Senhor D. Tomaz Silva Nunes; os outros, graças a Deus, estamos todos ao serviço!

Após a ordenação sacerdotal, esteve um ano como coadjutor em Torres Vedras e Runa…
Ainda passei um semestre em Roma, na Faculdade de História Eclesiástica, onde aprendi umas coisas que me foram muito úteis, sobretudo na metodologia do trabalho da história eclesiástica. Ao fim desse primeiro semestre voltei para Portugal e fui coadjutor de Torres Vedras e Runa até final desse ano pastoral. Depois nomearam-me para a equipa formadora do Seminário dos Olivais, onde fui prefeito, depois vice-reitor e reitor.

Durante esses anos nos Olivais contactou com muitos daqueles que vão ser seus colaboradores em Lisboa. O facto de os ter conhecido enquanto formador e como colega é importante para esta sua nova missão?
Claro que é muito importante! Porque temos um à vontade e, mais uma vez, uma naturalidade na relação que só se alcança com o tempo e com a convivência. Eles conhecem-me a mim, eu conheço-os a eles, tanto quanto nos vamos conhecendo, porque basicamente só Deus nos conhece! Há muita coisa que noutro sítio teria de começar de princípio, como aconteceu no Porto, e que aqui já está feita!

A 6 de novembro de 1999, então com 51 anos, o Senhor D. Manuel é nomeado Bispo Auxiliar de Lisboa. Esta nova missão permitiu-lhe estar mais perto das comunidades cristãs da diocese. Que recordações guarda desse tempo?
Tenho memórias muito boas e muito ricas para mim! As comunidades são muito distintas. Uma coisa são as comunidades do centro da cidade de Lisboa, outra são as dos vários bairros mais periféricos. Outra coisa são as de uma outra periferia que é tudo o que é novo e que ainda se está a organizar até em termos topográficos, de sedimentação das comunidades urbanas. Há medida que avançamos pelo Oeste, temos também outras comunidades.
O que importa, e o que foi crescendo nessa visita constante, nessa passagem pelas comunidades, foi a consciência de que nas comunidades cristãs está o Corpo de Cristo, como nós o podemos tocar. Há uma frase que o Papa Bento XVI retomou num dos seus textos, que é da antiguidade cristã, que diz o seguinte: quando nós falamos em Corpo de Cristo, falamos em três aceções – a primeira é o corpo humano que Jesus teve, nascido da Virgem Maria; a segunda é o corpo eucarístico, em que Ele quis ficar connosco no sacramento da Eucaristia, ‘tomai e comei isto é o meu Corpo’; e depois o corpo eclesial de Cristo, que Ele forma com aqueles que o comungam e que o apresentam no mundo. Ora, esta visita frequente às comunidades cristãs, apesar desta diferença que eu há pouco acentuei, mais sociológica, a experiência é essa, a experiência de estar no corpo de Cristo em cada comunidade cristã. Que cada comunidade cristã tenha consciência disso e por isso viva, como diz São Paulo aos Coríntios, cada um com o seu carisma e com o seu ministério, no conjunto, colaborando como um órgão, num grande organismo que é uma comunidade cristã, Corpo de Cristo. Isso é a riqueza da Igreja! É, digamos, a vida da Igreja, do que ela tem de essencial para depois oferecer ao mundo, também como participação e presença.

O que o preocupa na Igreja, hoje?
Há preocupações que são de sempre, que eu nem preciso sair de mim para as ter. Que é uma adesão cada vez mais sincera, convicta e real ao que Cristo me propõe. Isso é um programa imenso! Creio que todos nós ainda partiremos deste mundo com aquela dilaceração que São Paulo tinha: ‘Que infeliz homem que eu sou, o bem que eu quero não consigo, e o mal que eu não quero muitas vezes cai’. Portanto, esta consciência, esta dilaceração é fundamental. Quanto mais a Igreja mantiver viva a presença de Cristo e a exigência do Evangelho, mais se sente questionada. Como cristãos, nós estamos sempre diante de Cristo como estava Pedro! Quando Pedro reconhece que é Cristo, diz: ‘Senhor, afasta-te de mim, que eu sou um pobre pecador’. Esta consciência é fundamental! Eu costumo dizer em cada comunidade cristã para não se precipitarem, quando começa a Missa, porque o ato penitencial é mesmo para parar. Não é para dizer ou cantar e andar para a frente para o glória. Calma! Isto é fundamental: uma Igreja em permanente conversão, uma exigência constante, não presumir de si próprio, como Paulo, porque às vezes andamos bem, noutras vezes andamos muito mal, precisamo-nos de levantar, e que a Igreja seja um apelo e uma ocasião permanente de reabilitação e recomeço. Isso é fundamental. Portanto, isto ao nível mais íntimo.
Depois há algo que me preocupa, mas no sentido construtivo do termo. É que sendo a Igreja uma realidade essencialmente – não é acessoriamente – comunitária, a Igreja existe para que homens e mulheres de hoje participem na comunhão que Deus é, e isso só pode acontecer comungando uns com os outros, participando, integrando, não ficando ninguém de fora, preocupando-se positivamente uns com os outros. Isso exige estabilidade. Não pode ser apenas em certos momentos – também há ocasiões para isso, quando vamos a um encontro internacional, a Taizé, a Lourdes, a Roma, ao Rio de Janeiro, em que vimos de lá muito emocionados, mas isso tem o seu papel! Mas essencialmente a experiência comunitária é uma fidelidade àquele grupo! Uns são melhores, outros são piores, uns são velhos, outros são novos, uns têm saúde, outros estão doentes, uns são fáceis de aturar, outros são difíceis, mas são aqueles! É importante a persistência na comunidade, porque nós estamos hoje numa sociedade muito desarrumada. Eu costumo dizer que é a primeira sociedade que não sabe muito bem de que terra é… as pessoas gaguejam quando nós perguntamos de onde é que são! Porque realmente são de muitos sítios! Então, onde é que se fixam? Onde é que se faz a experiência comunitária? Isto leva-me a repetir – e outros dizem-no melhor do que eu – que o principal problema pastoral é talvez a reconfiguração comunitária. Como é que nós hoje vamos criar comunidades adequadas ao tempo em que se vive, com a dispersão que nós hoje temos, com o alibi mediático – que pode ser um alibi: as pessoas julgarem que por estarem virtualmente ligadas estão realmente ligadas, que não estão. Este é um problema e eu não tenho a solução no bolso. Eu julgo, aliás, que ninguém tem, porque estamos numa mudança epocal profunda. Nós não estamos na mesma época, nós estamos a mudar de época. Basta ver no campo da sociedade e da economia, e até da política internacional, os próprios comentadores e os próprios autores, têm mais perguntas do que respostas. Isto muda tanto, em termos de comunicação, e depois a comunicação também induz a ideias partilhadas. Em termos de cultura, isto não estabilizou e vai demorar muito tempo a estabilizar. Talvez demore menos tempo que noutras mudanças epocais, mas vai demorar algum tempo. Ora, como é que nós vamos afirmar, reafirmar e afinar a experiência comunitária nesta mudança epocal? Este é o grande desafio! E eu não tenho ilusões que posso estar no Patriarcado mais anos ou menos anos, mas hei-de ir para o outro mundo – como todos nós – com o problema por resolver. Mas alguma ajuda hei-de prestar…

O seu último livro intitula-se ‘O tempo pede uma Nova Evangelização’. De que forma pode ser feito esse novo anúncio?
O tempo que vivemos é este, e é indefinido. Quando queremos resolver um problema, a primeira coisa que podemos e devemos fazer é objetivá-lo. Mas esta mudança nós estamos nela; temos dificuldade em objetivar. Para onde é que isto vai? Como é que isto ‘poisa’, para nós recriarmos a comunidade cristã neste contexto, que é essencial ao próprio cristianismo? Mas o grande desafio é esse: que com as comunidades que entretanto tivermos ou conseguirmos construir, proporcionarmos aos nossos contemporâneos – e essa é que é a verdadeira iniciação cristã – uma autêntica imersão comunitária. Isso é fundamental! Dizem-me que nalguns países onde o cristianismo está hoje ainda nascente, e com muita pujança, concretamente no sudoeste asiático, que as comunidades vivem ao ritmo catecumenal. Como há sempre muitos adultos a entrar no cristianismo, isso não é um setor específico, um departamento, mas é a própria comunidade cristã, como nós encontramos nos textos dos séculos terceiro, quarto, quinto aqui na Europa, que vive ao ritmo da comunidade que inicia e que cresce com cada um que vem, que depois se integra e descobre a sua função no conjunto, quer como leigo, quer como consagrado, quer como clérigo. Isto é um enorme desafio… mas também é muito belo, porque é o cristianismo a acontecer!

O Senhor D. Manuel é caracterizado como sendo homem da cultura. Em entrevista por ocasião da visita de Bento XVI a Portugal, manifestou a necessidade de reequacionar a presença dos cristãos no mundo da cultura. Como é que isso poderá ser concretizado?
Numa atividade permanente de leitura, aprofundamento, debate, presença… isso é muito importante. Porque a cultura não é uma realidade passiva, é uma realidade ativa. A cultura não é termos uma estante cheia de livros, ou CD’s, ou de informação de outro tipo. Isso são meios, são repositórios. A cultura é um cultivo. Aliás, a primeira aceção até é agricultura: tratar da terra para que ela germine. A cultura do espírito, como também se diz, é um exercício permanente. É muito importante que nas comunidades cristãs, nas famílias cristãs, nos movimentos cristãos, se tenha em conta o que por aí vai de propostas, de debates, de criatividade nos vários domínios e tudo isso depois seja objeto de reflexão e de interpenetração da própria vida das comunidades, para que o culto e a cultura se enriqueçam mutuamente e para que nós saibamos responder e dar razões da nossa esperança, como diz um texto tão bonito do Novo Testamento, àqueles que nos perguntam. Portanto, esta atividade cultural é uma exigência! O culto é cultura!

Foi nomeado 17º Patriarca de Lisboa. O que diz a história acerca dos seus antecessores?
Houve patriarcados longos, como logo o primeiro! O de D. Tomás, que aliás também foi de Bispo do Porto para Patriarca de Lisboa. Houve também patriarcados muitos curtos, como um que eu estudei particularmente para a história dos patriarcas, que foi o Cardeal Saraiva. É uma longa série de Patriarcas, mas é muito interessante porque ela é significativa em cada Patriarca das várias épocas que se viveram em Lisboa e no país. Os Patriarcas do século XVIII, como D. Tomás de Almeida, até aos anos 20 do século XIX – porque como eles eram também predominantemente os capelães da corte – eram todos figuras da nobreza e viviam na Junqueira, perto do Palácio da Ajuda. Depois os Patriarcas que vêm a seguir ao liberalismo, a começar pelo D. Patrício, que era aliás de origem muito humilde, são Patriarcas já de outro tipo, são Patriarcas do constitucionalismo, em que a Igreja se integra dentro do Portugal constitucional, quase que uma parte eclesiástica da administração publica. São homens de outro perfil. Os Patriarcas a partir do Cardeal Mendes Belo, na sua fase pós 5 de Outubro, e depois o Cardeal Cerejeira, são Patriarcas eminentemente pastorais, ligados à vida da reconstrução da Igreja Católica em Portugal e no Patriarcado, que nessa altura era muito grande e envolvia o que é hoje Lisboa, Santarém e Setúbal e, até 1920, a parte sul do que é hoje a Diocese de Leiria. Portanto, eram sobretudo Patriarcas pastorais. Nós temos épocas distintas na história do Patriarcado e agora com os últimos Patriarcas, concretamente D. António Ribeiro e D. José Policarpo, entrámos já nestas épocas pós-modernas, em que é preciso que a Igreja se reidentifique como entidade propriamente pastoral e como consequência social e cultural.

Há algum Patriarca com quem se identifique particularmente?
Concretamente em relação a estes três Patriarcas que eu conheci, o Cardeal Cerejeira foi o Patriarca da minha infância, adolescência e juventude. Ele foi Patriarca até 1971, tinha eu já 23 anos. Portanto, toda a minha vida paroquial, e até nesses tempos de Acção Católica e do escutismo católico, é muito sob a égide do Cardeal Cerejeira, que era para nós uma referência muito grande. Para já, como pessoa, era apaixonante, era extremamente afectivo. Tive ocasião também de privar com ele, na sua casa de férias, porque era amigo de um sobrinho dele, e estive lá em Lousado. Era uma figura cativante, um homem muito inteligente, de grande sensibilidade, que viveu tempos difíceis numa situação muito complicada que era estar no centro do país naquelas épocas já de muita transição.
Depois o Cardeal Ribeiro, uma figura de uma grande contenção e muito certeiro nas suas manifestações e na sua presença. Teve um papel fundamental naqueles anos 70, que foram tão complicados em Lisboa, particularmente em torno do 25 de abril e do regime. Ele conseguiu dar, não só à Igreja de Lisboa mas também à Igreja do país, um papel de grande intervenção e serenidade na vida nacional e no encontro do seu melhor rumo – não nos podemos esquecer que foi ele ainda que no ano anterior à revolução fez a redação de um documento do episcopado, a Carta Pastoral nos dez anos da Pacem in Terris [Carta Encíclica do Papa João XXIII, publicada a 11 de Abril de 1963], onde nós podemos encontrar todo o programa de democratização do país. Eu chamo muito a atenção para isso, porque é um contributo notável do Cardeal Ribeiro, que depois foi nosso Patriarca até à sua morte, ainda com 69 anos. Sempre com grande rigor, era um homem com uma contenção activa! Também agia dessa maneira e marcava o ritmo e conseguiu dar rumo ao Patriarcado durante anos muito complicados.
O Senhor Cardeal Policarpo de certa maneira faz uma simbiose dos dois anteriores, porque tem a afectividade – então quem privou com ele sabe isso muito bem! –, a generosidade, o carinho e até por vezes a exuberância, que nós tínhamos no Cardeal Cerejeira; e também tem aquele pendor racional, intelectual e, quando é preciso, contido, como tinha o Cardeal Ribeiro. Todos eles me marcaram muito, com certeza.

Vai manter o seu lema episcopal, ‘In Lumine Tuo’ (‘Na Tua Luz’)?
O lema é tão bonito que não podia escolher outro! É um versículo daquele salmo tão bonito: ‘Na Tua Luz, Senhor, veremos a Luz’. Isso foi-me sugerido na circunstância do Jubileu do Ano 2000, em que fui ordenado Bispo, e é daí que nós vivemos, da luz de Cristo! E duma luz que esplende na Cruz! O que está no brasão é uma estrela de oito pontas – porque o oito significa a eternidade, é o que fica para além dos dias, é o oitavo dia –, mas que só esplende na Cruz! E é exactamente na adequação à Cruz de Jesus Cristo, portanto à Sua entrega ao Pai e ao homens, que brilha uma luz para todos, para a humanidade e com certeza para a Igreja.

De que forma o lema episcopal se tem concretizado na sua missão pastoral?
Tanto quanto eu me tenho adequado à Cruz, tem havido algum fulgor! Não há mais porque eu me adequo pouco!

Que ‘programa’, chamemos-lhe assim, tem para o pontificado que agora inicia?
O ‘programa’ – e vou dizê-lo certamente logo na homilia inicial – está muito facilitado, porque a Igreja tem um programa para cumprir. Tem o programa do Vaticano II, cinquenta anos depois, no que diz respeito ao seu autoentendimento como Igreja, como comunhão, para a unidade do mundo. A Igreja é um exercício de comunhão oferecido a um mundo que precisa de comunhão. Isto é o programa do Concílio, da Lumen Gentium e da Gaudium et Spes!
Mais perto de nós, temos a mensagem da última Assembleia do Sínodo dos Bispos, que é magnífica, e que de alguma maneira tem eco na Nota Pastoral que os bispos portugueses fizeram agora em abril [‘Promover a Renovação da Pastoral da Igreja em Portugal’], com os rumos para a pastoral nas dioceses portuguesas, e que de alguma maneira também se pode resumir em tornar a Igreja e as nossas comunidades em lugares de acolhimento e de missão!
Porque depois, quanto a programas mais concretos, 99% do programa das nossas comunidades está feito e é o de sempre: é acolher as pessoas, é proporcionar-lhes iniciação cristã, é acompanhar as famílias, é acompanhar os grupos, é estar presente na sociedade envolvente. Eu acho que até é um bocadinho abusivo estar a sobrecarregar aquilo que é o programa normal de qualquer comunidade cristã com mais programas por cima… o que é necessário é potenciar aquilo que nós temos que fazer!

A partir deste sábado, 6 de julho, quais vão ser as suas primeiras ações como Patriarca de Lisboa?
Ouvir, ver, estar perto. Como digo, em mais de seis anos de ausência, há muita coisa que permanece, mas há muita coisa também que evoluiu! Há muita gente nova que chegou – eu tenho reparado, porque é uma coisa que todos os bispos reparam, que é o número de ordenações, que foi muito considerável nestes anos. E também a integração de clero que veio de outras partes, e de diáconos! Há muita coisa nova que eu tenho que conhecer, também muita gente. Portanto, estes primeiros tempos vão ser para abeirar-me da realidade, porque a Igreja faz-se pela Igreja, não é nenhum Bispo que faz uma Igreja. Eu estou no centro de muita coisa, esse é que é o meu lugar. Portanto, ativar, aproximar, unir e potenciar aquilo que já está! Estes primeiros tempos vão servir para saber o que lá está!

No dia da sua nomeação, dirigiu uma saudação à diocese. Hoje, ao entrar solenemente no Patriarcado, que mensagem gostaria de deixar à Igreja de Lisboa?
Retomo o essencial do que lá está, dos sentimentos com que regresso, e depois aquilo que digo no fim, em “termos programáticos”, que é o sentimento de Jesus na sinagoga em Nazaré, e que hoje é particularmente urgente: eu hoje vim para anunciar a Boa Nova aos pobres. Nós temos pobrezas sempre, e algumas acrescidas devido ao estado actual da sociedade portuguesa, e temos problemas novos. Temos uma sociedade muito envelhecida, com gente muito só, a quem temos que atender. Temos gente muito dispersa exactamente por esse definhamento comunitário e social a que me referi. Gente que é preciso integrar e que é preciso ir procurar! Isto é o essencial! Portanto, eu gostaria que também comigo e com a Igreja toda, em Lisboa, nos abeirássemos das antigas e das novas pobrezas, numa atitude reforçada de presença e de companhia.

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